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Quarto dia em CapeTown – Lausanne III

Por Fabricio Cunha

O DIA

Manhã

Começamos o dia lendo o capítulo 3 de Efésios no pequeno grupo. Francisco fica extremamente animado com o texto e faz excelentes comentários, ao que Dionísio relata o que viveu no domingo, quando foi a uma igreja evangélica aqui em Cape Town e percebeu que brancos se sentavam de um lado e os negros de outro.  Foi convidado para tomar um chá depois da celebração. Aceitou. Percebeu que no salão do chá, só havia brancos. Saiu para dar uma volta e viu que a igreja tinha um outro salão onde os negros estavam reunidos. Uma lei pode ser mudada com radicalidade e certa rapidez, mas uma cultura, sem ações de intervenção, pode levar décadas. Paulo, em Efésios 3, anuncia o Evangelho da inclusão, onde todos são igualmente parte de um mesmo corpo e herdeiros dos mesmos benefícios. “Por isso Paulo anuncia seu ministério entre os gentios com tanta ênfase e alegria”, acrescenta Francisco. Corro o risco de ser repetitivo, mas quero transferir para vocês o quanto a experi6encia em grupo pequenos tem sido rica. Em minha opinião, ela divide a primazia do congresso com os testemunhos de irmãos da igreja perseguida e sofredora.

John Piper é o pregador de hoje, fez uma exposição do texto do dia. Fiquei impressionado com seu jeito Didático e empolgado de expor. Entretanto, o conteúdo foi, para mim, decepcionante. Fazemos muito do que ele fez. Repetimos lógicas que só fazem sentido dentro do quadrado evangélico mas que, enunciadas em qualquer outro contexto, demandariam muita explicação, para não dizer repulsa. Reenfatizou o conceito de Erasmo da Cantuária sobre o sacrifício de Cristo, fazendo-o como quem acabou de descobrir esse conceito e como se fosse a única forma possível de se interpretar a cruz. Repintou a linha que separa a evangelização da ação social com declarações sutis como: “precisamos salvar as pessoas de sua condição de pobreza MAS, PRINCIPALMENTE, da condenação eterna”. Alem disso, cometeu a indelicadeza de querer “consertar” a pregação de ontem, quando abriu parêntesis em sua pregação e recorreu ao texto exposto por Ruth Padilla dizendo que se não o interpretássemos direito, correríamos o risco de não entender o Evangelho.  Para não dizer que em nada aproveitei, ele falou sobre o sofrimento de Paulo, lembrando de da dimensão sacrificial de nossa fé, dizendo que ninguém escolhe sofrer, mas só se exulta ao sofrer aqueles que são cheios  de um poder sobrenatural e o caminho de tal enchimento é a oração.

O programa seguiu com um testemunho sobre o qual falarei na sessão “A HISTÓRIA”

A plenária II, teve como tema “Testemunhando o amor de Cristo a pessoas de outras crenças”. Eu esperava abordagens com ênfase mais catequética e conquistadora. Acho que estou “escaldado”. Mas fui surpreendido com boas exposições e testemunhos, enfocando o amor como o pressuposto básico para um bom dialogo com pessoas de outras fés. Um senhora muçulmana apresentou um trabalho com enfoque na justiça em favor da mulher muçulmana que foi especialmente marcante. E ela sabe muito bem do que está falando, pois já foi vítima dessa violência.

O alemão Michael Randsem nos chamou a atenção para nosso testemunho cristão. Uma vez, conversando com um amigo, disse que se descobrisse que só teria pouco tempo de vida, testemunharia como ninguém, ao que o amigo respondeu: “se você depende de alguma circunstância para ser uma testemunha, ainda não entendeu o valor do Evangelho”. Nosso chamado é para vivermos evidenciando a vida de Cristo por amor e convicção, até as últimas conseqüências e não por expectativas nossas ou alheias ou mesmo por demandas missionárias. Evangelho é o anuncio vivo das boas novas e demanda tudo o que somos e temos.

O que mais me impressionou, foi o jovem árabe Ziya Meral. Apresentou um projeto de inserção no mundo muçulmano, usando como critério não os índices de “conversão”ou de quantidade de “cristãos” mas os índices sociais. Disse que precisamos mudar de paradigma de missão e levar para o mundo muçulmano o que lhes falta em justiça, educação, tecnologia, em vistas de sua emancipação social para que, autônomos, possam decidir sozinhos.

Tarde

O Bispo Robinson Cavalcanti, responsável da Diocese Anglicana do Recife, apresentou um seminário sobre os “Evangélicos e a política no Brasil”, sua especialidade. Em período pré-eleitoral, foi um tempo excelente de orientação. Tivemos  também a presença de congressistas de outros, interessados numa avaliação geopolítica.

Noite

O renomado pastor presbiteriano de Manhatan, Tim Keler, foi o preletor principal da noite. Apresentou sua tese do porquê devemos concentrar nossos esforços em missão na cidade. A abordagem teve dois momentos onde, em primeiro lugar, ele apresentou dados para subsidiar sua tese. Disse, por exemplo, que a economia tende cada vez mais a se basear nos índices das grandes cidades do que nos dos países. Hoje, cem cidades já concentram 30% da população mundial. Em segundo lugar, fez uma exposição do livro de Jonas. Talvez pelo tempo, foi muito superficial e disse simplismos como: “Deus prefere as cidades em relação ao campo, porque nelas está a maior quantidade das pessoas que carregam a sua imagem e semelhança”.

A noite foi de temática Latino-americana e, para honrarmos nossa fama, foi alegre e uma bagunça.

Terminamos com um dialogo de 12 minutos entre René Padilla e Samuel Escobar, nos contando um pouco do histórico dos encontros internacionais e regionais do Comitê de Lausanne e da participação efetiva dos latinos nesses processos de construção. Ter dois homens como esses, sentados diante de um público global, mas dispondo somente de 12 minutos é um disparate, alem do que é a expressão de como os latinoamericanos têm sido considerados dentro do programa.

Mesmo assim, René Padilla usou o final de seu tempo para chamar a atenção de todos para temas que o preocupam. Acho que era exatamente isso que o Comitê Internacional temia pois pediram p[ara ler o que ele falaria no púlpito. Imaginem. Dão 6 minutos para ele e ainda querem ler o que ele vai falar. Disse: “preocupa-me tratarmos a globalização como um fenômeno normal. Ele só é normal para os ricos que oprimem os pobres e a natureza pelo seu furor em consumir. Preocupa-me o tema da ecologia. Se não o trouxermos para nossa pauta principal, não teremos mundo para nossos netos. Por último, preocupa-me o discurso de que queremos alcançar o mundo convertendo as pessoas. Jesus não espera convertidos, ele espera discípulos.”

Foi aplaudido de pé.


A HISTÓRIA

Um casal de missionários no Oriente Médio viajava de uma cidade para outra. Pararam no posto. Ela viu um senhor caminhando de um lado para outro, barba grande, arma nas costas. Ficou incomodada e resolveu entregar uma Bíblia para ele. Conversou com o marido que, imediatamente a repreendeu. Ela insistiu mas não foi atendida. Pouco depois de saírem, ainda sem nenhuma paz, ela pede para o marido parar o carro e lhe diz: “eu quis fazer a minha parte. O sangue desse homem não está sobre mim, mas sobre você…” O marido, contrariado mas constrangido com a palavra de sua mulher, dá meia volta, chega novamente ao posto, despede-se da mulher, com a certeza de que corre risco de vida, e vai na direção do homem, com a Bíblia nas mãos. Quando aborda o senhor e lhe entrega a Bíblia, o homem a recebe a abraça e a beija. Conta: “há três dias estou nessa cidade pois sonhei com um homem muito poderoso, que me disse para caminhar até aqui e esperar uma pessoa me entregar a Palavra da Vida”.

Não acredito que sangue recaia sobre nós, mas acredito no incômodo daqueles que são cheios do Espírito e que podem participar de processo sobrenaturais desse mesmo Espírito. É isso o que quero para minha vida e de meus irmãos Senhor. Quero participar do que estás fazendo no mundo.

A PESSOA

Lilby e Tom Little vivem em Kabul há 30 anos. Ele é dentista e organiza projetos nos finais de semana junto com outros profissionais em comunidades de vilarejos carentes do Afeganistão. Organizou mais um no último mês. Ligou para sua esposa Lilby dizendo que tinha sido muito difícil pois o carro não havia chegado ao local e tiveram que acampar na chuva e depois caminhar alguns quilômetros com todos o equipamento. Trabalharam o dia todo e continuaram caminhando até chegar à casa do pastor que os receberia. Uma das jovens teve sérias feridas nos pés. Chegando à casa, um amigo a estava ajudando a limpar as feridas, quando um pastor afegão aproximou-se emocionado e começou a dizer: “poecha makabul, poecha, makabul”, que quer dizer “formosos são os pés, formosos são os pés.”

Trabalharam novamente no dia seguinte. Tim ligou novamente, dizendo que já estavam saindo e que chegaria em casa no início da noite. Nunca chegou. Ele e mais 14 pessoas foram assassinadas a caminho de Kabul.

Quando o FBI foi avisar Lilby, levou alguns dos pertences de Tim, dentre eles, o caderno sujo de sangue, onde estava suas impressões do projeto e o devocional que tinham feito na noite anterior. Os textos eram Efésios 2. 10 e “somos o bom perfume de Cristo”.

“Não sei por qual motivo eles foram assassinados e talvez nunca saberei, mas sei qual foi o motivo pelo qual entregaram suas vidas. O preço que pagamos não é maior do que o amor de Cristo por nós e pelo povo Afegão, por quem Ele se entregou” disse Lilby com a voz embargada. “Tem sido difícil sem meu Tim, mas ele combateu o bom combate, completou a carreira e guardou a fé”.

O sangue de Tim, nas páginas daquele caderno, são a assinatura mais pura de alguém que viveu e morreu por Cristo e por seu povo.

UMA OPINIÃO

Seria de bom tom colocarem um testemunho de algum cristão afegão, que teve  o testemunho de sua fé comprometido por conta da invasão do exército americano em seu país. Só uma opinião…

 

Lausanne III – Cidade do Cabo 2010

Fabricio Cunha faz parte do Comitê de Lausanne e é envolvido com a Fraternidade Teológica Latino Americana. Esta na Cidade do Cabo na África do Sul participando do Congresso Internacional de Evangelização Mundial conhecido como Lausanne III. Fabricio esta com um diário de bordo, escrevendo nas noites sobre as experiências das plenárias e do cotidiano da comitiva brasileira. Recomendo o acesso nos próximos dias ao blog dele. Escreve os textos com uma pessoalidade, “Fra(n)queza” e sensibilidade que vale a pena ler. Segue abaixo seu relato do segundo dia, onde no final conta a história de garota de 17 anos que falou na plenária. Nas palavras de Fabricio: “Gyeong Joo Son só tem 17 anos, mas o mundo não é digno dela.”

O Segundo dia

Manhã

Começa cedo. “La alabanza” começa às 8h00. Em seguida vêm os pequenos grupos. Fizemos, juntos, uma breve exegese do capítulo 1 de Efésios. Como foi bom reencontrar com esse texto e ver Paulo relativizando os conceitos de bênção, riqueza e poder que acreditamos ser os corretos nos dias de hoje. O expositor da manhã foi o diretor nacional da Youth For Christ do Sri Lanka, Ajith Fernando. Fez uma exposição óbvia, salvo alguns poucos insights, do texto referido. Apesar de novo, já fui em muitos congressos internacionais e, sinceramente, minhas expectativas nunca são altas demais. Por conta da grande diversidade, os preletores tendem a reduzir um pouco o potencial de impacto de suas participações para tentar incluir a todos em sua abordagem. Mais uma vez não fui surpreendido por algo que tenha me causado espécie. Logo voltamos aos pequenos grupos para “ruminarmos” o texto que acabou de nos ser apresentado, mas que já havíamos lido antes.

A riqueza, até então, tem sido o Pequeno Grupo. O meu tem 5 pessoas: eu, fazendo a moderação, Francisco, presidente da Igreja Evangélica Livre da Espanha, Ylídio, pastor de 71 anos, fundador de uma denominação na Venezuela que tem mais de 30 mil membros, Dionísio, que trabalha preparando jovens pregadores da Colômbia, em parceria com a Fundação John Stott e Corina, uma alta executiva da Visão Mundial, que é responsável por toda área de Advocacy da instituição em todo mundo e trabalha em parceria com a ONU. O grande privilégio para mim, tem sido dividir histórias, orações e estudos com esses irmãos tão diferentes e com ministérios tão profícuos e longevos.

Em seguida o tema abordado foi “Defendendo a verdade de Cristo num mundo globalizado e pluralista”. Os preletores foram, respectivamente, o coreano Carver Yu, o alemão Michael Herbst e o britânico Os Guiness. Todos muito bem preparados e falando com propriedade e efusividade o “mais do mesmo”. Tenho conversado com o Ricardo Barbosa sobre a ansiedade dos jovens pelo novo, ao que ele me disse de seu apego cada vez maior ao “mais do mesmo”, às raízes do Evangelho puro e simples, ao apego pelas coisas de sempre que representam o fundamento de nossa fé e da fé histórica de nossos pais. Concordo com ele. Todavia abordagem fundamentalista da absolutização da verdade, me assusta um pouco. Não me vejo encaixado nesse modelo de pensamento, mas isso fica pra um outro texto.

Tarde

Acontecem cursos livres, os multiplexes.

Optei por ficar conversando com um grupo de brasileiros num corredor, o que gera sempre resultados ricos. Tivemos uma reunião de toda delegação Latino-americana. Sempre muito alegre, barulhenta e pouco pragmática. Brinquei com o Wilson Costa que alguém iria reclamar de alguma coisa no congresso, contagiar boa parte do grupo, que decidiria escrever uma carta/documento de repúdio e crítica à Lausanne. Dito e feito. Ri muito, mas fiquei em silêncio dessa vez. Acho que estou amadurecendo e preferindo os campos minoritários para exercer alguma influência.

Mas eles têm muita razão. Toda a delegação da AL não chega a 400 pessoas, isto é, é menos de 10% de todo congresso. Teremos somente dois preletores nas plenárias principais e bem poucos nos multiplexes e seminários. Só a delegação americana é composta de mais de 600 pessoas, sendo que tinham a cota de 400. Sinto confessar, mas me acostumei com isso.  A batalha pela representatividade numérica e nas prédicas, parece-me uma briga que não vale à pena. Precisamos usar bem o que temos e fazer nosso dever de casa por aqui, em nosso contexto, estabelecendo parcerias estratégicas principalmente com irmãos de outras realidades similares, gente do hemisfério sul, da área pobre, mas crescente e pensante. Acreditem, o nível de reflexão dos teólogos latino-americanos é altíssimo. Vale-me muito mais uma conversa de corredor com o René Padilla, Samuel Escobar, Tito Paredes, Vitor Rey, Harold Segura ou Ruth Padilla, do que uma plenária principal. E é nisso que invisto meu tempo.

Noite

Celebramos a fé, oramos e cantamos à luz de testemunhos, vídeos e apresentações artísticas de irmãos da Ásia.

A HISTÓRIA

Desde que cheguei, notei uma quantidade de cadeiras separas num local, sem que ninguém se sentasse nelas. Num auditório completamente cheio, não consegui entender o porquê daquelas cadeiras ali, vazias. O programa da noite de hoje foi aberto pelo grupo de referência do Comitê de Lausanne, do qual faz parte o brasileiro Valdir Steuernagel. Seu líder, Doug Birdsall, informou-nos que a delegação da China de fato não teve a autorização do governo para fazer a viagem até a África do Sul. Recebi um pedido de oração na semana passada, explicando que estavam tendo dificuldades para conseguir o visto de saída. Li e deletei. Não dei quase nenhuma atenção. Hoje, Doug nos contou que aqueles irmãos têm sofrido com a perseguição à igreja protestante séria da China e que, mesmo impedidos de vir até aqui, estavam orando por nós e nos mandaram uma carta com alguns textos bíblicos (Fp 1. 29; IICo 6. 3-10; Tg 1. 19; Jô 6. 10; Sl 42) e uma gravação de seu coral cantando “O Amor do Senhor pela China”. Chorei muito, muito mesmo. Leia os textos, leia a letra da música, deixe a sua melodia penetrar no mais profundo do teu coração e tente sentir o soco do constrangimento, como senti hoje à noite. Enquanto não me dou nem ao trabalho de ler com atenção a um pedido de oração de irmãos preciosos que têm dado a sua vida de fato para a proclamação do Evangelho, eles nos mandam uma carta de oração e uma música de clamor.

A FRASE

“O sangue dos santos rega a terra e faz, dela, brotar vida.”

A PESSOA

A noite já estava para terminar suficientemente profunda e emocionante depois dos vídeos das igrejas asiáticas, dos testemunhos de pessoas perseguidas e da carta da igreja da China, quando entra uma menina no enorme palco principal do evento. Pequena, franzina, oriental. Aparentava 16 ou 17 anos. Depois de tanto impacto e de um dia bem cansativo, não dou muita atenção.  A voz doce e firme da menina vai ganhando meus ouvidos quando diz que nasceu na Coréia do Norte e teve que fugir com a família pelo fato de seu pai estar sendo perseguido pela ditadura. Refugiados na China, encontram-se com Cristo e se convertem. Sua mãe, grávida do segundo filho, morre de leucemia. Em seguida o pai é descoberto, detido, deportado e preso na Coréia. Ela fica sozinha e é cuidada por um pastor americano e sua família, que residia na China. Poucos anos depois, seu pai é solto e volta para a China. O tempo de prisão não arrefeceu a sua fé, pelo contrário, serviu como combustível para inflamar seu coração para continuar vivendo e transbordando sua fé na Coréia do Norte, seu país. Pediu que a filha continuasse por um tempo com a família da China para que ele levasse um carregamento de Bíblias para a Coréia. Ele o fez, mas foi novamente preso e , dessa vez, executado.

Uma menina de 17anos, completamente órfã.

Quando a família se preparava para voltar aos EUA, a menina teve um sonho onde via Jesus. Ele a dizia: “Gyeong Joo, não tenha medo. Eu estou contigo e quero que vá para a Coréia do Norte falar do meu amor. Por que ainda está esperando?” Ela acordou decidida a ficar na China e a se preparar para voltar para seu país, compartilhar o amor de Deus que alcançou e transformou sua família.

Pergunto-me. Depois de tanto sofrimento e desgraça, como uma menina tão nova, tão frágil, consegue ver a beleza do amor de Deus a ponto de entregar-se até às últimas conseqüências? Só quem conhece de fato esse amor saberá me responder.

Ela terminou dizendo: “Vou para a Coréia do Norte expressar o amor de meu Deus, honrar o sangue de meu pai e o de meu irmão, Jesus Cristo.”

Silêncio. Ela começa a chorar. O rosto de menina do início, que transformou-se no de uma heroína enquanto contava sua história, voltou a ser rosto de menina enquanto chorava. Chorei junto com ela. Queria muito abraçá-la bem apertado, enxugar suas lágrimas e lavar seus pés. Um pastor chinês o fez e senti-me representado.

Escrevo ao lado de minha cama, mas não tenho coragem de deitar-me nela. Como um ato simbólico de honra aos meus irmãos chineses, vou deitar-me e dormir essa noite no chão. Como ato simbólico de honra e amor pela pequena coreana, derramo as minhas últimas lágrimas da noite.

Gyeong Joo Son só tem 17 anos, mas o mundo não é digno dela.

Fabricio Cunha

Saiba mais sobre Cape Town 2010 e sobre o Movimento de Lausanne.


Missão Integral – Lançamento de Ricardo Gondim

Ricardo Gondim lança em livro sua dissertação de mestrado: Missão Integral em busca de uma identidade evangélica

No dia 27 de novembro do calendário de 2009, aconteceu o lançamento do livro “Missão Integral – em busca de uma identidade evangélica” (editora Fonte Editorial). A obra segundo me informou seu autor, Ricardo Gondim, é 100% o conteúdo de sua dissertação de mestrado, sem acrescentar ou diminuir um til. O lançamento ocorreu na livraria Saraiva do Morumbi Shopping (mesmo local em que Caio Fabio lançou seu livro Sem Barganhas em dezembro de 2005).

A Obra de Gondim apresenta um processo histórico da chamada Missão Integral, e suas conseqüências para os dias atuais, sua caminhada desde antes do Pacto de Lausanne em 1974, passando pelos teólogos latino-americanos e seus principais nomes da difusão da teologia “pé no chão”. Gondim que participou desta caminhada nas últimas décadas apresenta seu olhar sobre o tema. A Grande tensão do Congresso Mundial de Evangelização de Lausanne (que teve como redator do pacto John Stott) era manejar uma faca de dois gumes, no caso evangelização e ação social. Qual teria que ser a primazia? Para quem quer conhecer a história deste movimento, vale a pena ler o livro. O movimento houve um esvaziamento segundo o autor no início da década de 80. Saiba os motivos que geraram e os debates teológicos e sociais em volta do tema.

O leitor entenderá os motivos porque René Padilha, um dos expoentes do movimento da Missão Integral na América Latina optou por não comparecer ao II Congresso de Evangelização realizado em 1989 em Manila nas Filipinas. Entenderá que as organizações Billy Graham que convocaram e organizaram o Congresso de Lausanne em 1974, que segundo a revista Time foi possivelmente a reunião mais global realizada pelos cristãos por sua amplitude e números e alcance, foram 2.473 “participantes”, cerca de mil observadores de 150 países e 135 denominações protestantes, que foi um Congresso que marcou uma geração, entretanto Gondim denuncia que seu organizador em sua autobiografia publicada originalmente nos Estados unidos em 1997, Billy Graham não cita nem uma vez sequer o Congresso de Lausanne, enquanto gastou vinte e quatro páginas para descrever seu relacionamento com Richard Nixon e seus cafés da manhã na Casa Branca.

No livro o leitor encontrará histórias e opiniões de diversos nomes envolvidos com a Missão Integral na América Latina como René Padilha, Samuel Escobar, Orlando Costas entre outros e ativistas do movimento em solo brasileiro, principalmente nomes da primeira geração pós Lausanne 1974, como Valdir Steuernagel, Robinson Cavalcante, Caio Fabio, Darci Dusileck, Luiz Longuini Neto, Ariovaldo Ramos, Ed René Kivitz, Ziel Machado entre outros.

Além de saber sobre os CLADES – (Congressos Latino-Americanos de Evangelização) e os CBEs (Congressos Brasileiros de Evangelização) CBE I e II, 1983 e 2003 e a FTL (Fraternidade Teológica Latino Americana) e suas importâncias para o movimento na América Latina e as diversas organizações paraeclesiásticas que se engajaram e se comprometeram com a causa de Cristo através da Missão Integral.

Para mim que estou tentando me aprofundar no tema, foi uma sensacional aula de história e opiniões diversas para entender sobre o movimento, aliás, falando em aprofundamento, aguardemos a tese de doutorado de Gondim que promete continuar tratando mais afundo com o tema.

O Livro é dividido em 3 capítulos com diversos sub-temas; Capítulo 1 – Missão Integral e Identidade Evangélica; Capítulo 2 – A Missão Integral, Expectativa e Frustração e por fim o Capítulo 3 – Missão Integral: A difícil tarefa de Equilibrar Evangelização e Responsabilidade Social. A Obra tem 185 páginas e vale a pena ser lida na íntegra, inclusive as mais de 100 notas de rodapé.

Além do lançamento do livro no Morumbi Shopping, Gondim participou de uma manhã de autógrafos de seus livros na rua Conde de Sarzedas no dia 04 de dezembro na livraria Lírio dos Vales onde foi realizada a última foto deste post.

Para finalizar esta matéria, vale ressaltar que o prefácio do livro é escrito pelo orientador de Gondim, o católico Jung Mo Sung, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo.

Livraria Saraiva do Morumbi Shopping foi palco do lançamento da obra

Gondim realiza manhã de autografo na rua Conde de Sarzedas em 4 de dezembro

Fotos e texto: Alex Fajardo

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