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O que eles estão falando da Igreja

LIVRO-O-que-eles-estão-falando-da-igrejaEm 03 de dezembro de 2010, o auditório João Calvino, nas dependências da Universidade Presbiteriana Mackenzie, foi palco do lançamento do livro “O que eles estão falando da Igreja” publicado pela Fonte Editorial. O livro  é uma coletânea de artigos acerca da Igreja. Organizado pelo teólogo e pastor presbiteriano Ricardo Quadros Gouvêa, tem como colaboradores em cada capítulo os teólogos Alessandro Rocha, Jorge Pinheiro, Paulo Brabo, Ricardo Gondim e Willian de Melo. Ricardo Quadro Gouvêa assina dois capítulos, dentre eles destaque na visão deste blogueiro, do último capítulo: “Missão Integral: Um Convite à Reflexão”, o texto já havia sido apresentado ao público nas reuniões da Fraternidade Teológica Latino Americana nos encontros do Núcleo São Paulo em fevereiro de 2010 e no Núcleo Campinas em maio deste mesmo ano, ambos podem ser acessados aqui e aqui e agora compõe um dos capítulos do excelente livro. 

Abaixo algumas fotos que realizei no evento.

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Ricardo Quadros Gouvêa, organizador do livro.

Ricardo Quadros Gouvêa, organizador do livro.

Auditório João Calvino na Universidade Presbiteriana Mackenzie esteve com capacidade máxima de interessados em ouvir os autores do livro.

Auditório João Calvino na Universidade Presbiteriana Mackenzie esteve com capacidade máxima de interessados em ouvir os autores do livro.

Ricardo Gondim, autor de um dos capítulos do livro fala acerca da Igreja.

Ricardo Gondim, autor de um dos capítulos do livro fala acerca da Igreja.

Leia Mais: Missão Integral: Um Convite a Reflexão 

 

Missão Integral: Um Convite à Reflexão

Este texto do doutor em Teologia e pastor presbiteriano Ricardo Quadros Gouvêa é um belo escrito para quem quer entender o que é e o que não é Missão Integral. O texto foi apresentado pela primeira vez na reunião da Fraternidade Teológica Latino Americana em fevereiro de 2010 em um encontro do núcleo São Paulo e uma segunda vez em maio de 2010 no núcleo Campinas da FTL. Em julho o texto foi disponibilizado publicamente no site da FTL, no qual este blog também publica abaixo. 

UPDATE: no final do ano de 2010 o texto foi incluído como um capítulo no livro O que eles estão estão falando da Igreja, organizado pelo próprio Gouvêa e publicado pela Fonte Editorial. O lançamento do livro aconteceu na Universidade Presbiteriana Mackenzie e pode ser conferido nesta reportagem neste blog. 

Missão Integral: Um Convite à Reflexão

I. Palavras Introdutórias

 
Muito já se escreveu sobre missão integral. Os livros recentemente lançados sobre o assunto, o de René Padilla e o de Ricardo Gondim, perfazem juntos uma boa síntese do que se entendeu teologicamente até hoje por missão integral e os problemas desse construto teórico, bem como de sua aplicabilidade na vida das igrejas evangélicas e dos movimentos evangélico e/ou evangelical.

Teremos em breve encontros em que debateremos estas obras com seus autores. Sendo assim, o que propomos para hoje? Proponho um exercício de reflexão teológica conjunta a partir de um texto que servirá meramente como ponto-de-partida, que não se pretende original ou inovador, mas sim esclarecedor.

Não sei, entretanto, se eu entendo bem o que quer dizer “missão integral” ou o que é a “teologia da missão integral”. Vejo discursos e práticas desalinhadas sob esse mesmo rótulo, e fico com a sensação de que há desinformação e dissonância cognitiva, o que pode e deve ser resolvido, além de uma salutar discordância e variação nuançada, o que é positivo, mas convida ao diálogo.

Este texto busca, portanto, ainda que modestamente, auxiliar na caminhada em direção a uma resposta acerca do significado do construto teórico teológico “missão integral”, tão importante na história da Fraternidade Teológica Latino-Americana.

Estou convencido que há dois estudos propedêuticos que se fazem necessários antes que exploremos o conceito de missão integral propriamente, tentando uma aproximação mais acurada de definição ou de identificação. Passo agora, portanto, a essas duas excursões breves em teologia filosófica ou teologia cultural ou ainda teologia apologética, como se dizia antigamente. Estas duas excursões lidam com as relações entre evangelho e cultura, primeiro e, depois, entre evangelho e política.

 
II. Evangelho, Cultura e Política: Duas Excursões Teóricas


1.      Evangelho e Cultura

Esta sempre foi uma relação de grande tensão na história do cristianismo. Hoje compreendemos que não poderia deixar de ser. Evangelho e cultura se distinguem, mas não é fácil distingui-los. O Evangelho não existe a não ser enculturado, isto é, contextualizado. Há quem queira separar o Evangelho da cultura, mas isso nunca existiu, e não pode ser feito. É da natureza do Evangelho ser cultural. O Evangelho já nasce inserido numa cultura, a cultura judaica, mas não se confunde com ela. Esta é a tensão infinitamente elástica que nos causa tantos transtornos: o Evangelho não é a cultura, nem mesmo a cultura judaica, mas só existe imiscuído e misturado com a cultura, de tal forma que não é possível extraí-lo e limpá-lo da cultura sem causar dano à natureza intrínseca do Evangelho e também à cultura. Se tentarmos distinguir cultura de Evangelho, fica um pouco de cultura, perde-se um pouco de Evangelho, e não se obtém um bom resultado.

A primeira transposição cultural sofrida pelo Evangelho foi para a cultura helenista dos tempos da chamada igreja primitiva. Essa transposição foi feita com razoável sucesso, mas não sem fortes traumas. É uma transposição que começa com Paulo, e é, portanto, sancionada pelo próprio Evangelho, pelas Escrituras Sagradas. Mas o Novo Testamento também já dá testemunho dos traumas e aflições causados pela transposição. O relativo sucesso do empreendimento deve nos fazer perceber as tremendas transformações sofridas pelo Evangelho no mundo helenista, e, em particular, a leitura de tendências neoplatônicas e semi-gnósticas que acabaram por preponderar no período patrístico, e acabaram por servir de base para a construção da teologia.

Uma segunda transposição acontece no período medieval, e posteriormente no período moderno, e sempre sofreu o Evangelho transformações, assim como transformou as culturas. Com o surgimento das nações-estado modernas, e com o crescimento econômico e populacional advindo das revoluções científica e industrial, surge um grande número de culturas ocidentais distintas promovendo novas tensões com o Evangelho herdado, e o trabalho missionário leva o Evangelho para culturas não-européias, que iriam absorver o evangelho misturado à cultura dos próprios missionários.

Os missionários das igrejas protestantes históricas trouxeram ao Brasil um Evangelho marcado pelos traços culturais de onde eles haviam partido. Foi só no século XX que a relação Evangelho e cultura passou a ser mais estudada e compreendida. Começou-se a perceber a enorme complexidade do processo enculturação do Evangelho, e se começou a falr, no fim do século XX, em contextualização.

O grande cientista da religião Helmut Richard Niebuhr, irmão do célebre teólogo Reinhold Niebuhr, foi um dos pioneiros nesse estudo, com o clássico Cristo e Cultura, onde distingue cinco diferentes possibilidades compreensão do relacionamento entre Evangelho e Cultura, que ele denomina: (i) Cristo contra a cultura; (ii) Cristo da Cultura; (iii) Cristo acima da cultura; (iv) Cristo e Cultura em Paradoxo; e (v) Cristo transformador da cultura. Niebuhr nos mostra como todos os cinco “tipos” (“tipos ideais”, como ele diz) foram praticados e implicitamente ensinados através dos tempos. No entanto, sugere que os primeiros dois são enganosos, distorções, o primeiro pela rejeição da cultura, e o segundo pela sua adoção não criteriosa ou sem qualificações necessárias. Eles representariam, grosso modo, os pólos fundamentalista e liberal. Os três outros tipos estariam, segundo o autor, mais de acordo com aquilo que o Novo Testamento propõe, o terceiro representando a posição tomista, o quarto a posição existencial-dialética, e o quinto a visão mais comum na teologia contemporânea.

Ao que me parece, a teologia da missão integral se propõe partidária, acima de tudo, da quinta possibilidade, de ver Cristo como transformador da cultura, sem negar a importância e o valor da cultura, como no caso principalmente do primeiro tipo niebuhriano, mas também do terceiro, típico do mundo evangélico conservador (que é em grande grau tomista sem saber disso). Trata-se, portanto, de trazer o Evangelho à cultura para redimi-la, não para alterá-la. Isso está de acordo com o que dissemos a princípio: o Evangelho só é verdadeiramente o Evangelho quando está enculturado, inserido na cultura e contextualizado, e só assim não é distorção.

Em suma, Cristo é mais, muito mais do que normalmente pensamos. Cristo significa uma vida melhor não só para o indivíduo, mas para a nação. O Evangelho propõe um mundo melhor, e nos convida a promover esta integração do Evangelho às culturas humanas em particular, e aos nossos projetos de civilização. Qualquer outra possibilidade é uma distorção alienante que retira do Evangelho seu escopo e seu poder transformador.

 
2.      Evangelho e Política

Há quem diga abertamente que o Evangelho nada tem a ver com política. Há quem deplore que se discuta o que se chama vulgarmente de “questões políticas” na igreja. Quando vemos o péssimo exemplo dos políticos evangélicos, até entendemos a razão desse tipo de ojeriza à política. Mas, em geral, é fruto de uma pregação evangélica distorcida que aliena as pessoas, fazendo-as pensar que as questões políticas e sociais nada têm a ver com espiritualidade.

A relação entre cristianismo e política não deve ser confundida com a relação entre igreja e estado. A separação entre igreja e estado foi uma preciosa conquista da democracia. Ela garante a liberdade de culto e garante que, na ausência de uma religião oficial do estado, nenhuma instituição religiosa será privilegiada pelas leis do país. Isso nada tem a ver, no entanto, com a relação entre cristianismo e política. O verdadeiro cristianismo, me parece, está envolvido nas questões sócio-políticas até o pescoço. Ou talvez deveríamos dizer: até a cabeça, que é Cristo.

Sabemos que a Bíblia e o Evangelho nos convidam a um sério engajamento com os problemas sociais, econômicos e políticos. O quietismo supostamente presente em Romanos 13 empalidece ante as inúmeras passagens bíblicas nos convidando à denúncia e ao combate das injustiças sociais e os desmandos políticos. Os estudos contemporâneos sobre os tempos de Jesus e sobre sua pessoa e ministério, como os de Marcus Borg, John Crossan, Richard Horsley, e N. T. Wright, entre outros, tornam patente o fundamental elemento sócio-político de sua missão.

Isso nos convida a entender o que é a ação política que tem lugar no contexto do Evangelho. Não estamos falando de política partidária, que visa a obtenção e manutenção do poder. A ação cristã na política partidária é, em geral, fisiológica e clientelista, em benefício de igrejas, inclusive, e é, em suma, má política e mau cristianismo. Estamos falando de cidadania e consciência política do cidadão que leva a envolver-se nas questões sócio-políticas que o afetam diretamente, e particularmente a formulação e promulgação de leis que o beneficiam ou não, enquanto cidadão.

Esse é o problema da ação social assistencialista, que é o que os evangélicos praticam, em geral, e que às vezes se confunde com Missão Integral e com consciência cidadã e sócio-política, quando não é. O assistencialismo não resolve os problemas sociais e políticos porque não atinge o cerne das questões, não desce às estruturas, não ameaça os poderosos. Pelo contrário, o assistencialismo se encaixa perfeitamente no modelo dos poderes opressores de uma sociedade. Por isso, as igrejas não são combatidas, porque não ameaçam esses poderes políticos e econômicos. Se o fizesse, seria perseguida.

O que seria, então, uma igreja engajada numa luta pela cidadania e pela conscientização sócio-política? Seria uma igreja que estimulasse os seus membros a protestar, por meios legítimos e não-violentos, como passeatas e abaixo-assinados, reivindicar ante as autoridades, e, por fim, exigir leis mais justas e ação governamental voltada para a melhoria das condições de vida dos menos favorecidos. Não é isso que acontece nas igrejas evangélicas.

Eu tendo a pensar que o que a FTL entende por Missão Integral implica em uma restauração da integralidade do Evangelho de Cristo, hoje obliterado nas igrejas evangélicas, por meio de uma compreensão da relação tensa e paradoxal entre Evangelho e Cultura que nos desafia com o poder de Cristo para a transformação da cultura, e por meio de uma compreensão da relação entre Evangelho e Política que nos faça perceber as dimensões políticas e sócio-econômicas da pregação de Cristo.
 

III. Via Negativa
 

Estamos prontos agora para iniciar nossa busca pelo sentido da expressão missão integral. Para fazermos esta busca juntos, proponho partirmos de uma ponderação invertida ou negativa. Em vez de nos perguntarmos “o que é missão integral”, perguntemo-nos antes “o que não é missão integral”. Faremos algumas sugestões que certamente auxiliarão na limpeza do terreno para uma edificação positiva mais adequada a seguir.

Então, comecemos. Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que:

 
1.      Missão integral não é “estratégia de evangelização”.

Eu peço perdão por iniciar esta parte com algo aparentemente tão banal, mas também tão fundamental. Vale dizer que eu mesmo já ouvi pessoas, em reuniões da FTL, manifestarem em suas falas, sem serem corrigidas, estar sob a sombra deste terrível equívoco. Não há equívoco mais contrário ao espírito da teologia da missão integral, em minha opinião, do que pensá-la como uma estratégia para a evangelização. É evidente que os adeptos da teologia de missão integral logo dirão que o próprio conceito de evangelização ganha novas cores a partir da adoção da noção de missão integral, que deixa de ser mera conquista de almas para Cristo, etc. etc. Porém, por outro lado, quem comete esse equívoco ainda não está, em geral, sob o impacto de uma nova compreensão do evangelho e da missão da igreja que a teologia de missão integral impõe. De qualquer forma, os evangélicos em geral tendem a cair ou recair em fórmulas gnósticas que separam e distinguem o material e o espiritual, o corpo e a alma, num espírito contrário ao do ensino neotestamentário. Vale a pena, portanto, lembrar e alertar que, acima de tudo, missão integral não é uma estratégia ou técnica de evangelização ou, o que seria ainda mais nefasto, de estufamento de igrejas.

 
2.      Missão integral não é “ministério de ação social”.

É possível que este seja o mais comum e mais perigoso engano no que se refere à noção de missão integral: confundi-la com o ministério de ação social de uma igreja local ou uma denominação. Não estamos dizendo que as igrejas não devam ter tal ministério. Muito pelo contrário. Ministérios eclesiásticos ou para-eclesiásticos de ação social podem ser um importante instrumento para a concretização de alguns aspectos do que chamamos de missão integral. Entretanto, esses ministérios não implicam que haja missão integral enquanto construto teórico teológico. Não se pode inferir da presença destas agências que haja missão integral, ou que elas trabalhem sob a égide da missão integral. E pode, por outro lado, haver missão integral sem que haja ministérios e agências de ação social, que são, no geral, de caráter meramente assistencialista, e não percebem a necessidade de instituir instrumentos políticos que possam gerar mudanças estruturais na vida sócio-cultural e político-econômica da sociedade. 
 

3.      Missão integral não é uma “teoria missiológica”.

Então, em um nível mais profundo, alguém poderia supor, ao perceber que este construto teórico afeta diretamente as práticas eclesiais, que se trata de um construto teórico de teologia pastoral, e, mais especificamente, de missiologia. A missão integral seria, portanto, uma compreensão específica de como a igreja faz missão, ou, numa redação muito melhor, como a igreja cumpre a sua missão. Seria, portanto, uma tese missiológica, mais ou menos nas seguintes linhas: a igreja cristã tem a missão de pregar o evangelho, mas esta pregação não se faz apenas com palavras, mas com atos de amor que manifestem o amor de Deus pelas pessoas através de nós, através das ações das comunidades cristãs. É evidente que tal compreensão da noção de missão integral está bem mais próxima do adequado que as concepções equivocadas descritas acima. Percebemos, todavia, que ela também tem problemas teóricos, enquanto definição conceitual da endiadys “missão integral”. Em primeiro lugar, esta compreensão pode sugerir que a missão integral é uma teoria missiológica entre outras, que uma igreja ou um cristão pode escolher ou não como sendo a sua missiologia. Tal concepção da endiadys como mera teoria missiológica, portanto, coloca em risco a percepção de sua necessidade, no sentido filosófico do termo, para a presença do evangelho. Em outras palavras, ameaça tornar a noção de missão integral algo extrínseco ao evangelho, e não intrínseco ou essencial no evangelho. E tal minimização da noção é algo que a teologia da missão integral nunca tolerou nem pode tolerar. Em segundo lugar, torná-la meramente uma teoria de teologia pastoral põe em risco a centralidade do conceito na constituição do evangelho, e essa marginalização do conceito é também algo que a teologia da missão integral nunca tolerou nem pode tolerar.
 

4.      Missão integral não é “diaconia”.

Antes de mais nada, vamos esclarecer que o termo “diaconia” não está sendo aqui empregado como sinônimo de ministério de ação social da igreja local, ou com a idéia de uma “junta diaconal” na igreja local, ou coisas semelhantes. O termo está aqui sendo empregado para discernir algo que parece ser essencial no ensino de Cristo, que é servir. Confundir missão integral com ministério de ação social é banal e totalmente equivocado. Confundir missão integral com diaconia é bastante desculpável, pois o que proponho aqui é uma filigrana, uma distinção muito sutil realmente, que já nos lança para o âmbito da teologia bíblica e sistemática, e nos aproxima de nosso ponto de chegada, que é a relação entre missão integral e o próprio evangelho de Cristo. Esclareça-se agora, e desde já, que o evangelho de Cristo não é apenas o perdão de nossos pecados pelo sangue derramado na cruz. É, antes, nossa reconciliação com Deus pela união mística com Cristo. É a presença de Cristo em nós, a presença do Espírito Santo que é o Espírito de Cristo, que determina nossa redenção, nossa justificação e nossa santificação. A presença de Cristo em nós implica necessariamente em discipulado, sob o senhorio de Cristo. Portanto, implica em diaconia, isto é, em serviço, assumir a forma de servo que o próprio Jesus Cristo assumiu. A diaconia é, portanto, aspecto essencial do seguimento de Cristo. Quem está em Cristo, serve a Deus e ao semelhante. Sem dúvida que a prática diaconal de cada cristão no seu seguimento de Cristo parece indicar uma percepção maior ou menor, mais ou menos consciente daquilo a teologia da missão integral sugere acerca da natureza do evangelho, mas não é uma marca inquestionável de que a noção de missão integral tenha sido assimilada ou que, em outras palavras, a missão integral tenha sido adotada. É bem possível que um cristão pense na diaconia como um aspecto da vida cristã que nada tem a ver com missão.
 

5.      Missão integral não é outro nome para a “teologia da libertação”.

Muitos podem pensar que a teologia da missão integral é uma versão evangélica da teologia da libertação, cujos principais nomes são majoritariamente católico-romanos. Há, de fato, mitos pontos-de-encontro. Porém, há também pontos divergentes, e isso desde os fundamentos. Enquanto a teologia da libertação tem sido descrita por muitos como uma leitura marxista da Bíblia, e as evidências apontam para a propriedade desta percepção acerca do referencial teórico fundamental da teologia da libertação, o mesmo não se pode dizer da teologia da missão integral, que se propõe, talvez um tanto ingenuamente, como uma teologia que é produzida apenas a partir da Bíblia, sem utilizar nenhum outro referencial teórico como chave hermenêutica. Seja como for, o importante pressuposto por detrás desta comparação é que a teologia da missão integral é uma teologia, assim como a teologia da libertação. O que significa dizer isso? Significa que a teologia da missão integral é uma interpretação geral do que é o cristianismo, do que significa ser um cristão, uma interpretação sobre o significado do próprio evangelho.


IV. Vórtice Elucidativo
 

Então, perguntemos agora, ainda que tentativamente, “o que é missão integral”? Para responder a essa pergunta, temos que aglutinar alguns importantes componentes da equação, e o faremos por meio de um progressivo afunilamento teórico.

 
1.      Missão integral é uma teologia bíblica do evangelho.

Já dissemos que missão integral é uma teologia. Isso é elucidador, mas fica a pergunta: que tipo de teologia? Parece ser uma teologia bíblica, isto é, uma tentativa de configurar esquematicamente a instrução bíblica a partir da própria Bíblia em vez de partir dos loci communes da chamada teologia dogmática ou sistemática. Há, porém, muitos tipos de teologia bíblica, com diferentes ênfases. Parece-me que a teologia da missão integral é uma teologia bíblica que centra toda a reflexão teológica na definição da natureza intrínseca do próprio evangelho, e quero propor, mais construtivamente agora, que ela o vê como o cumprimento da grande comissão de Cristo à luz do Mandato Sócio-Cultural do Gênesis.
 

2.      Missão integral é uma interpretação da Grande Comissão à luz do Mandato Sócio-Cultural.

O Mandato Sócio-Cultural surge logo nos primeiros versículos da Bíblia, compondo as primeiras ordenanças de Deus ao homem na Criação. Ler a Grande Comissão de Mateus 28 à luz do Mandato Cultural é vê-lo como resgatado diante da redenção em Cristo em face da queda. Em outras palavras, no esquema Criação-Queda-Redenção, o Mandato Cultural é recuperado na redenção em Cristo pela chamada Grande Comissão.

O Mandato sócio-cultural de Gênesis nos aponta para o projeto de Deus para a espécie humana. O projeto não está explicitamente descrito, mas implícito naquilo que a narrativa bíblica apresenta na forma de comando divino. Ele inclui: (i) apoio à família e à educação; (ii) apoio à pesquisa científica e tecnológica; (iii) promoção da nutrição alimentar e, por inferência, de todas as necessidades básicas para a sobrevivência e saúde de todos, sem exceção de ninguém; (iv) descanso e lazer para todos, e, por inferência, trabalho para todos.

Por meio da redenção em Cristo, a sua igreja se torna novamente capaz de fazer valer o mandato sócio-cultural. Isto é ler a grande comissão como retomada do projeto divino para a humanidade. Isso é, para mim, a principal base para a teologia da missão integral.
 

3.      Missão integral é a Missão da Igreja e a Teologia que serve à Igreja.

A missão da igreja é sua razão de existir. Ela existe para cumprir sua missão, sem a qual ela não tem sentido algum. Creio que a teologia da missão integral reconhece isso e propõe que é preciso compreender a missão da igreja em sua inteireza. Mais que isso, implica também que a teologia da igreja só faz sentido se feita à luz da missão da igreja, auxiliando-a no cumprimento da mesma. Se não é assim, é teologia que se impõe sobre a igreja, e que obriga a igreja a servi-la em vez de servir a igreja. É teologia que atrapalha a igreja no cumprimento de sua missão. Toda teologia que se preze, creio eu, deve ser feita a partir de dois motores: o estudo da Bíblia e a missão da igreja.

Alguns dizem que a missão da igreja é adorar a Deus. Paulo ensina, em Romanos 12, que o verdadeiro culto a Deus é oferecer-se em sacrifício vivo, o que implica em algo mais que a adoração e o louvor na compreensão popular dos conceitos. Alguns dizem, em contrapartida, que a missão da igreja é evangelizar o mundo. De fato, mas aqui cabe perguntar o que isso significa. Seria apenas levar os homens a se decidirem por Cristo? A se tornarem membros de igrejas evangélicas? Ou seria a difusão do Reino de Deus? Ou seria ainda mais, a infusão dos valores do reino na cultura e na sociedade?
 

4.      Missão integral é o próprio evangelho.

Missão integral é, talvez, outro nome que se pode dar ao próprio evangelho, como um cognome, ou um aposto. Como aposto, poderíamos dizer, por exemplo: “o evangelho de Cristo, isto é, a missão integral da igreja, deve ser o centro da pregação cristã”, e assim por diante.

Evangelho, como todos sabem, significa “as Boas Novas da salvação em Cristo”. Eu quero crer que é isso também que significa a missão integral. Se não fazemos essa identificação, talvez seja porque limitamos, por vício, o escopo do significado do Evangelho. Salvação em Cristo significa união mística com Cristo: Cristo em nós, operando nossa justificação e nossa santificação. Cristo em nós implica em uma transformação espiritual sendo operada; implica na imitação de Cristo; em outras palavras implica em discipulado. Na verdade, creio que é preciso afirmar que não há salvação sem a presença do Espírito de Cristo em nós, e, portanto, sem obediência, sem esvaziamento, sem tomarmos a forma de servo que Cristo tomou. Em suma, não há redenção em Cristo sem seguimento, sem discipulado, porque não há evangelho sem discipulado. Seguir a Cristo e servir a Cristo significa um engajamento naquilo que chamamos de missão integral.

Então, não há outro evangelho, a não ser este: a adoção e a participação na missão que só pode ser integral. Em hipótese alguma uma missão parcial ou fragmentária poderá ser chamada de evangelho. Não há missão parcial. E aqui está a grande falácia por detrás desta expressão, desta endiadys: missão integral, pois falar em missão integral pode fazer presumir que há outra missão cristã ou evangélica que seja também válida, e que nãos seja integral, quando na verdade só há uma missão em Cristo: aquela que inclui a integralidade daquilo que o Evangelho representa.

O problema é que isso coloca todos os adeptos da teologia da missão integral em franca e direta oposição à larga e vasta maioria das igrejas evangélicas e do mundo evangélico, que jamais compreendeu e jamais aceitou a teologia da missão integral, que certamente não entende a missão da igreja dessa forma, mas antes pregando e praticando aquilo que os adeptos da missão integral seriam obrigados a chamar de “missão parcial”.

Só a aceitaram os chamados “evangelicais”, um adjetivo que se usa, em oposição a “evangélico”, para designar um grupo de evangélicos de difícil localização. Uma palavra que é um anglicismo, tradução do inglês “evangelical” que, na verdade, quer dizer “evangélico”, e não “evangelical”. O adjetivo “evangelical” tende a cair no vazio. Quem são os evangelicais, além dos participantes da FTL?

Mas acontece que, se não há missão parcial, isso tem sérias conseqüências para quem advoga a missão integral. Assim como uma meia-verdade é, em geral, uma mentira inteira, também a noção de uma missão parcial é um equívoco. Missão parcial simplesmente não é a missão cristã, pelo contrário, é uma distorção perigosa da missão, uma distorção alienante, aviltante e opressora. Não é a verdadeira missão do corpo místico de Cristo, a Igreja Invisível, que é sempre missão integral, uma vez que essa é a única genuína missão neotestamentária. Uma missão distorcida não só não é missão de Cristo, mas presta desserviço a Cristo, pois é missão feita em nome de Cristo sem ser de Cristo. Isso a caracteriza, a partir de uma perspectiva neotestamentária, como missão do anticristo. Toda igreja que se diz cristã, mas rejeita, não por ignorância, mas conscientemente, a teologia da missão integral, está, ipso facto, sub judice, como candidata a igreja do anticristo.
 

V. Palavras Finais

Alguém poderá dizer, agora que desembarcamos no porto final desta caminhada teórica que compõe esta comunicação, que as conclusões a que chegamos são apenas óbvias. Diante desta observação crítica, tudo que tenho a dizer é que concordo inteiramente. Assim já dizia Caetano Veloso que seriam óbvias as palavras que o índio proferiria em um ponto eqüidistante entre atlântico e o pacífico. E que surpreenderiam por ser óbvias, pois o óbvio é bom, é claro e é verdadeiro. É precisamente da obviedade que carecemos, mas não da obviedade tautológica ou repetitiva, a platitude que não passa de um lugar comum. O que se pretendeu foi dizer o óbvio que esclarece, que desobnubila, que desobstaculiza, que ilumina e que tranqüiliza o coração. Não proponho, porém, sequer que este trabalho específico de limpar o terreno para futuras edificações esteja completo. Esclareço ainda além, portanto, que este texto pretendeu apenas iniciar uma reflexão que deve continuar em conjunto agora, num espírito fraterno e elucidativo.

Missiologia – Histórico da Missão Integral

Fabricio Cunha traçou na lousa o caminho histórico da evangelização protestante mundial nos últimos 100 anos, com ênfase na Missão Integral

Na noite do dia 24 de fevereiro, ocorreu na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, uma aula especial sobre Missão Integral, na disciplina de Missiologia. Fabricio Cunha foi convidado para realizar a aula sobre a história da Missão Integral na América Latina. Fabricio que atualmente realiza pesquisas sobre o tema para o seu mestrado que esta em andamento em Ciências da Religião na Universidade Metodista de São Paulo, explanou por cerca de uma hora o assunto que certamente daria para ser discutido durante um semestre em sala de aula, tamanho seu contexto, história e relevância na caminhada de grupos do protestantismo latino-americano.

Fabricio ampliou o tema, iniciando a história através dos primeiros congressos sobre evangelização no início do século XX, onde explicou o contexto mundial dos congressos de 1900 em Nova York nos EUA e 1910 em Edimburgo na Escócia. Viajando pela história da missões no mundo e suas vertentes, chegou em Lausanne 1974, e os encontros do CLADE na América Latina a partir de 1969. A aula prosseguiu aterrisando em solo brasileiro e explicando seus desdobramentos a partir do Congresso Nacional de Evangelização (CNE) em 1983.

O Tema que se manteve desconhecido nas últimas décadas por alunos, e restrito a alguns círculos de pensadores da primeira geração pós Lausanne I, vem arrebatando cada vez mais Seminários e Faculdades de Teologia de diversos locais do Brasil que estão incluindo cada vez mais a temática da Missão Integral como disciplina a ser estudada e debatida em suas salas de aula.


Fraternidade Teológica – Núcleo São Paulo

Prof. Ricardo Quadros Gouvêa esteve compartilhando com os presentes suas reflexões acerca das bases teológicas da Missão Integral

Aconteceu nesta quarta-feira pela manhã, dia 03 de fevereiro no Seminário Teológico Servo de Cristo, um encontro da Fraternidade Teológica Latino Americano – Núcleo São Paulo. Na ocasião os presentes ouviram o professor Dr. Ricardo Quadros Gouvêa e suas reflexões acerca da teologia da Missão Integral no Brasil. Após sua palestra/aula de cerca de 40 minutos, houve um café e em seguida perguntas foram feitas pelos presentes ao palestrante no sentido de enriquecer o encontro e reverberar idéias sobre o tema e seus caminhos no Brasil.

O texto foi disponibilizado publicamente pelo autor. Leia aqui

Quem quiser conhecer melhor a Fraternidade Teológica e seu núcleo na capital paulista, clique aqui e veja a sua retomada.

 

Encontro foi realizado nas dependências do Seminário Teológico Servo de Cristo no bairro da Vila Mariana em São Paulo

Reunião preparatória para o II Fórum Jovem Missão Integral

Ariovaldo Ramos realizou devocional de cerca de uma hora com a galera

Aconteceu nos dias 14 e 15 de janeiro a primeira reunião preparatória para o II Fórum Jovem Missão Integral. O I Fórum aconteceu na cidade de Itu em 2007 com mais de 600 participantes jovens de diversas igrejas do Brasil e do exterior.

A reunião preparatória aconteceu nas dependências da Igreja Batista de Água Branca, estavam presentes Marcell Steuernagel e Samuel Scheffler da Igreja Luterana do Redentor em Curitiba, Thiago Tomé da Presbiteriana do Planalto de Brasília, do Rio de Janeiro estavam Rainerson Israel da Igreja Batista Central da Barra e Rodrigo Silva da Missão Base e da Igreja do RecreioFabricio Cunha, Rógerio Quadra e Alex Fajardo de São Paulo. Com exceção deste que escreve e de Marcell Steuernagel que é músico, o outros todos são pastores de jovens em suas comunidades. Não puderam vir Lissânder Dias e Tábata Mori, ambos da rede Mãos Dadas, residentes na cidade mineira de Viçosa que também fazem parte da equipe da organização.

O Início da reunião aconteceu com um devocional de Ariovaldo Ramos que nos trouxe uma meditação à partir do texto de Mateus 5.16 –  “Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.”

Logo depois houve um histórico do I Forúm Jovem contado pelos organizadores para que os mais novos da equipe se alinhassem com os acontecimentos, houve destaque dos pontos positivos e negativos, onde fomos informados do que se aprendeu com o primeiro fórum.

O Fórum Jovem de Missão Integral tem três intenções principais: 1. a manutenção e fomentação da plataforma de debates em torno do tema Missão Integral entre a juventude brasileira; 2. realizar intercâmbio de instituições que trabalham na perspectiva da missão integral e de jovens de todo o país; 3. estabelecer relacionamento entre os jovens que têm familiaridade com o conceito e projetos de Missão Integral com novos jovens interessados no tema.

A reunião no primeiro dia, que durou sete horas, também discutiu local do próximo Fórum, logística e transporte para quem vem de fora, comunicação e o programa dos eventos onde foram ventilados nomes de futuros palestrantes de oficinas e das mesas redondas que ocorrerão na forma de pequenos grupos.  A Equipe já tem a data para o II Fórum que será nos dias 23 e 24 de junho de 2011 e provavelmente na cidade de São Paulo ou cidades próximas.  Nós próximos meses a equipe estará com um site no ar para melhor divulgação e detalhes.

Primeiro dia reunião durou sete horas: jovens de Curitiba, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e São José dos Campos

. Em Breve acompanhe maiores informações do Fórum por aqui

Líderes evangélicos discutem formação de uma rede nacional

Os participantes em oração pela igreja brasileira: Durvalina Barreto Bezerra do Betel Brasileiro intercedendo ao microfone

Dia 14 de dezembro de 2009 ocorreu na IBAB (Igreja Batista de Água Branca) um encontro de 90 líderes do protestantismo nacional representantes de entidades, organizações e instituições. O Intuito do encontro é a criação de uma aliança em formato de rede que agregue todos. A Reunião foi convocada pelos líderes Ariovaldo Ramos (Missão Integral), Bertil Ekstrong (WEA), Débora Fahur (RENAS), Fabrício Cunha (IBAB Jovem e Usina 21), José Libério (Toca do estudante), Luiz Mattos (ALCEB), Silas Tostes (AMTB), (Visão Mundial) e Welinton Pereira (Visão Mundial).

A Reunião teve início as 09:00hs e foi aberta por Valdir Steuernagel que agradeceu a todos que foram chamados e trouxe uma palavra de gratidão, em seguida passou a palavra para Ed René Kivitz que trouxe uma palavra reflexiva sobre o texto do evangelista Mateus 4.23 – Ed René discorreu sobre o fracasso dos modelos socialistas e capitalistas e que o mundo clama por algo e que o evangelho não propõe apenas um outro mundo possível mas um novo ser humano possível, disse que participa da reunião com sentimentos misturados e fez um alerta dizendo que sofre arrepios quando a palavra representatividade é utilizada no meio evangélico, pois buscam o reconhecimento da Rede Globo apenas, que ele crê que este encontro não quer isto, pois as figuras do Reino de Deus são de subversão e muitos perderam o caminho da fermentação e abraçaram o caminho da pretensão. Alertou que a rede deve procurar articular a igreja para o serviço e não para a representatividade, é uma rede que coloca a toalha na mão do povo de Deus, a rede não deve se articular para salvar o movimento evangélico, pois se ele esta morrendo, deixe que morra. Quem fará parte desta aliança? Pergunta Kivitz, ele próprio responde, quem esta servindo e quer servir! “O que deve nos trazer aqui é a multidão que agoniza e não o movimento evangélico” afirmou o pastor que finalizou reforçando “Que estejamos aqui com a motivação de criar uma rede de solidariedade e serviço e não de representatividade.”

Em seguida Valdir Steuernagel passou a palavra para o sociólogo Paul Freston que apresentou dados sobre o Brasil e os evangélicos. Trouxe um histórico dos movimentos que buscavam representar os evangélicos e tempos passados e com erros e acertos passados disse que “O modelo não pode ser o do personalismo de um líder carismático, que exige-se um esforço muito grande, pois para ter lastro e duração é preciso contar com pessoas capacitadas que se disponham a gastar tempo para dar densidade ao processo de maneira que a Aliança tenha organicidade.” Dentre suas palavras informou que ninguém controla a imagem pública, não temos controle sobre o que a mídia vai divulgar sobre nossa imagem articulação ou movimento. (O que Paul Freston disse na reunião sobre a mídia já pode ser constatado um mês depois do encontro em alguns blog`s franco-atiradores)

Logo após houve um momento de oração específica por 5 pontos: 1 – Oração pela unidade da Igreja; 2 – Oração pela liderança evangélica; 3 – Oração por uma Igreja comprometida com os valores do Reino de Deus;  4 – Pela Aliança que esta se formando e 5 – Pelos Seminários, Faculdades e Escolas e institutos de formação de obreiros existentes no Brasil

Em um segundo momento houve a apresentação de Débora Fahur da RENAS (Rede Evangélica Nacional de Ação Social) que explicou como funciona o modelo de rede em contraste com o modelo clássico da pirâmide, pois a rede tem a característica importante da horizontalidade que é entendida como uma qualidade de relações que se dão fora do contexto dominação/subordinação que é o resultado e produto do acionamento simultâneo de alguns valores como: respeito a diferença e a diversidade, à autonomia, ao reconhecimento da interdependência, à co-responsabilidade e à colaboração, expressos em práticas de gestão da rede nos relacionamentos entre membros.

A proposta do modelo de formação e funcionamento em rede já existe, o que não foi decidido ainda na reunião é o nome da entidade, provisoriamente estão chamando de uma Aliança Evangélica, pois desde os tempos da extinta AEVB (Associação Evangélica Brasileira) os evangélicos de linha histórica não se reuniam para uma representação em conjunto.

O bispo anglicano Dom Robinson Cavalcanti que se deslocou do Recife para participar do encontro disse que (vídeo neste post) “A representatividade não é uma escolha; é uma consequência sociológica”, e brincou com os números onde diz que a noiva de Cristo se tornou um harém de tanta igreja existente. Jasiel Botelho presente na reunião não perdeu a oportunidade de realizar uma charge da constatação (reproduzida abaixo neste post)

Um dos organizadores do encontro, o pastor Fabrício Cunha em entrevista para este blog ao elaborarmos a matéria, quando questionado sobre a importância do evento disse que “A Associação, Alianção, Rede ou Confederação é um importante passo numa caminhada que já tem lastro, história e legitimidade por conta da antiga CEB (Confederação Evangélica Brasileira), que atuou de forma efetiva entre os anos 30 e 64, quando foi inviabilizada pela ditadura militar. Precisamos ocupar alguns espaços que reclamam maior presença cristã e pedem por representatividade, que pode ser feita de forma saudável ou não. Por isso nosso sentimento de pertença à história. Fazemos parte de uma caminhada e não queremos inaugurar nada que já não tenha existido e que não represente uma reação a uma demanda de nosso tempo, a de, enquanto evangélicos, trabalharmos para que as pessoas se pareçam mais com Cristo, as relações sejam mais baseadas no paradigma trinitário e a sociedade baseie seu modus operandi na agenda do Reino de Deus.”

Neste post vale relembrar a Confederação Evangélica citada por Fabrício que nos informou que A CEB foi inaugurada em 1930 com o papel de representar o segmento evangélico e formar um órgão cooperativo em vistas da construção de uma identidade evangélica nacional e de projetos que fossem comuns, acompanhando os passos na América Latina após o Congresso do panamá em 1916.  Era formada por secretarias, das quais se destacou a célebre Secretaria de Ação Social, liderada pelo pastor Erasmo Braga. Convocaram uma seqüência de encontros nos anos 50 e 60, dos quais se destacou a Conferência do Nordeste em 1962, com o tema “Cristo e processo revolucionário brasileiro”. Foi inviabilizada em 1964 pela ditadura militar e reaberta  em 1987 sem o mesmo intuito e motivação.

Uma das bases confessionais para o encontro foi o Pacto de Lausanne, declaração de fé da ALCEB e o código de ética da Aliança Evangélica Mundial, sobre os fatores que motivam a caminhada dos que participaram do encontro, são três:

1. A absoluta necessidade de responder ao chamado do Evangelho no contexto de significativos setores da igreja brasileira dos nossos dias e no nosso contexto.
2. A percepção comum e imperativa de que necessitamos uma espécie de aliança que seja agregadora, ágil e representativa e, ao mesmo tempo, possa existir com o mínimo de burocracia e custos.
3. A busca por uma aliança que congregue redes já existentes, no objetivo de que elas sejam a nossa voz e expresse a nossa realidade, tanto no Brasil de hoje como em relação aos processos de representatividade externa a que somos chamados nestes nossos tempos.

Vale ressaltar que a reunião não esta sendo formada em nome de uma pessoa ou igreja específica, pois diversas entidades participaram do encontro na forma de associações, faculdades, institutos e organizações como AMTB, APMB, Convenção Batista Nacional, ABUB, MPC, JV, FLAM, Seminário Teológico Servo Cristo, Visão Mundial, Igreja Episcopal Anglicana, Movimento Encontrão ligado à Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, Fórum jovem de Missão Integral, Revista Ultimato, W4 Editora, Rede Fale, RENASFTL – ContinentalCompassion, Seminário Betel Brasileiro, Missão AVANTE, Missões Quilombo, Desperta Débora, Toca do estudante, Instituto Anima.

A Mídia cristã se fez presente através de Klênia Fassoni da Revista Ultimato, Whaner Endo do Portal Cristianismo Criativo e entre diversos blogueiros este aqui que escreve este post.

A reunião que durou quase 5 horas finalizou com uma carta de princípios que diz que a aliança é uma “rede que visa ser expressão de unidade de cristãos evangélicos no Brasil e de ação, reflexão e posicionamento evangélico em questões éticas e de direitos humanos”. Silas Tostes foi o redator da carta que captou diversas sugestões dos pequenos grupos que se reuniram por cerca de uma hora para elaborar as indicações e debater os princípios que nortearam a futura aliança, a carta ainda é provisória. Segundo o facilitador da reunião, Valdir Steuernagel houve uma rica discussão em torno da proposta e que a próxima reunião ainda não será a de fundação pois reconhecem a necessidade de maior diálogo e formação de mais líderes em volta da proposta. O próximo encontro será realizado entre os meses de maio e julho de 2010 em local a ser definido ainda pelos organizadores.

Texto, fotos e vídeo Alex Fajardo

Luterano Valdir Steuernagel e o sociólogo Paul Freston

Paul Freston: “Funções públicas vão acontecer. As instâncias sociais querem saber o que os evangélicos estão fazendo e pensando. E não há interlocutor. Este vazio será certamente preenchido por alguém. Como fazer isto sem ingenuidade sociológica, mas sem perder o idealismo do Evangelho?”

Valdir Steuernagel , Fabricio Cunha, Robinson Cavalcanti e Key Yuasa observam palestra de Paul Freston

Key Yuasa (Curitiba, Igreja Holliness) orando pela unidade da Igreja

Key Yuasa de Curitiba da Igreja Holliness ora pela unidade da igreja brasileira

Fabricio Cunha que faz parte da nova geração de líderes da igreja brasileira explica os diversos nomes sugeridos para a futura aliança

Ricardo Agreste da Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera em Campinas conversa com Valdir Steuernagel sobre pontos da Carta de Princípios da futura rede

O Bispo e o pastor: Robinson Cavalcanti e Ed René Kivitz dialogam sobre o movimento

Participantes se dividiram em grupo para propor pontos na Carta de princípios

Diretor nacional da Mocidade para Cristo (MPC) Marcelo Gualberto se deslocou de Belo Horizonte para o encontro

Pr. Cláudio Ely Dietrich Espíndola -representando a Convenção Batista Nacional também analisou a Carta de princípios

Ao centro da foto o pastor Rogério Quadra ligado ao Fórum Jovem de Missão Integral e obreiro do Instituto Papel de Menino, que desenvolve um trabalho junto aos menores infratores da Fundação Casa também esteve presente

Presbiterianos: Ricardo Barbosa de Souza pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto em Brasilia, conversa com Hilton Figueiredo da Fundação Grão de Mostarda e do Seminário Servo de Cristo

Exército da Salvação também esteve presente no encontro

Todo evento foi registrado pelo pastor José Libério da Toca do Estudante: futuramente material será disponibilizado em DVD

Silas Tostes presidente da Associação de Missões Transculturais Brasileiras é o responsável pela redação da Carta de prinípios

Chargista Jasiel Botelho esteve no evento representando os Jovens da Verdade e a FLAM

Modelo em rede substitui o modelo piramidal

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Missão Integral – Lançamento de Ricardo Gondim

Ricardo Gondim lança em livro sua dissertação de mestrado: Missão Integral em busca de uma identidade evangélica

No dia 27 de novembro do calendário de 2009, aconteceu o lançamento do livro “Missão Integral – em busca de uma identidade evangélica” (editora Fonte Editorial). A obra segundo me informou seu autor, Ricardo Gondim, é 100% o conteúdo de sua dissertação de mestrado, sem acrescentar ou diminuir um til. O lançamento ocorreu na livraria Saraiva do Morumbi Shopping (mesmo local em que Caio Fabio lançou seu livro Sem Barganhas em dezembro de 2005).

A Obra de Gondim apresenta um processo histórico da chamada Missão Integral, e suas conseqüências para os dias atuais, sua caminhada desde antes do Pacto de Lausanne em 1974, passando pelos teólogos latino-americanos e seus principais nomes da difusão da teologia “pé no chão”. Gondim que participou desta caminhada nas últimas décadas apresenta seu olhar sobre o tema. A Grande tensão do Congresso Mundial de Evangelização de Lausanne (que teve como redator do pacto John Stott) era manejar uma faca de dois gumes, no caso evangelização e ação social. Qual teria que ser a primazia? Para quem quer conhecer a história deste movimento, vale a pena ler o livro. O movimento houve um esvaziamento segundo o autor no início da década de 80. Saiba os motivos que geraram e os debates teológicos e sociais em volta do tema.

O leitor entenderá os motivos porque René Padilha, um dos expoentes do movimento da Missão Integral na América Latina optou por não comparecer ao II Congresso de Evangelização realizado em 1989 em Manila nas Filipinas. Entenderá que as organizações Billy Graham que convocaram e organizaram o Congresso de Lausanne em 1974, que segundo a revista Time foi possivelmente a reunião mais global realizada pelos cristãos por sua amplitude e números e alcance, foram 2.473 “participantes”, cerca de mil observadores de 150 países e 135 denominações protestantes, que foi um Congresso que marcou uma geração, entretanto Gondim denuncia que seu organizador em sua autobiografia publicada originalmente nos Estados unidos em 1997, Billy Graham não cita nem uma vez sequer o Congresso de Lausanne, enquanto gastou vinte e quatro páginas para descrever seu relacionamento com Richard Nixon e seus cafés da manhã na Casa Branca.

No livro o leitor encontrará histórias e opiniões de diversos nomes envolvidos com a Missão Integral na América Latina como René Padilha, Samuel Escobar, Orlando Costas entre outros e ativistas do movimento em solo brasileiro, principalmente nomes da primeira geração pós Lausanne 1974, como Valdir Steuernagel, Robinson Cavalcante, Caio Fabio, Darci Dusileck, Luiz Longuini Neto, Ariovaldo Ramos, Ed René Kivitz, Ziel Machado entre outros.

Além de saber sobre os CLADES – (Congressos Latino-Americanos de Evangelização) e os CBEs (Congressos Brasileiros de Evangelização) CBE I e II, 1983 e 2003 e a FTL (Fraternidade Teológica Latino Americana) e suas importâncias para o movimento na América Latina e as diversas organizações paraeclesiásticas que se engajaram e se comprometeram com a causa de Cristo através da Missão Integral.

Para mim que estou tentando me aprofundar no tema, foi uma sensacional aula de história e opiniões diversas para entender sobre o movimento, aliás, falando em aprofundamento, aguardemos a tese de doutorado de Gondim que promete continuar tratando mais afundo com o tema.

O Livro é dividido em 3 capítulos com diversos sub-temas; Capítulo 1 – Missão Integral e Identidade Evangélica; Capítulo 2 – A Missão Integral, Expectativa e Frustração e por fim o Capítulo 3 – Missão Integral: A difícil tarefa de Equilibrar Evangelização e Responsabilidade Social. A Obra tem 185 páginas e vale a pena ser lida na íntegra, inclusive as mais de 100 notas de rodapé.

Além do lançamento do livro no Morumbi Shopping, Gondim participou de uma manhã de autógrafos de seus livros na rua Conde de Sarzedas no dia 04 de dezembro na livraria Lírio dos Vales onde foi realizada a última foto deste post.

Para finalizar esta matéria, vale ressaltar que o prefácio do livro é escrito pelo orientador de Gondim, o católico Jung Mo Sung, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo.

Livraria Saraiva do Morumbi Shopping foi palco do lançamento da obra

Gondim realiza manhã de autografo na rua Conde de Sarzedas em 4 de dezembro

Fotos e texto: Alex Fajardo

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