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Acessório “cool” para o nosso lado espiritual

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Esse fim de semana de páscoa, fui para a chácara de amigos. Eu tinha acabado de ler o ótimo livro A Mensagem secreta de Jesus do Brian McLaren, e já comecei nesse fim de semana a ler o livro Chamado Radical da Bráulia Ribeiro, presidente da JOCUM – Jovens com uma missão – eu sempre gostei dos escritos dela em artigos que vejo dela nas revistas Ultimato e Eclésia. Hoje mesmo devo terminar o livro que tem 176 páginas.

 

Deixo aqui um trecho do livro:

 

“Hoje, as pessoas não se interessam por um livro que não seja de auto-ajuda. Vivemos numa sociedade hedonista, voltada para o eu e unicamente para ele. Até mesmo Deus, salvação, evangelho, religião, são meros acessórios da nossa área pessoal “espiritual”. Temos advogados para as questões jurídicas, mecânicos para o carro, parceiros para sexo, esteticistas e cirurgiões plásticos para o nosso look, e temos Jesus como um acessório cool para o nosso lado espiritual. Saia dessa! A sociedade hedonista mente sobre a felicidade. A verdadeira felicidade só se encontra quando nos despimos de nós mesmos e nos voltamos para o outro.”

 

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O vilarejo

Sempre gostei de acompanhar os escritos da Bráulia, das colunistas da  Ultimato, é uma das primeiras que leio quando a revista me chega em casa. Este artigo é um dos que mais gosto dela, foi publicado na edição 307 de julho/agosto de 2007.

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“Ele morreu por todos, para que aqueles que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Co 5.15)
Ouço música com meu filho do meio. De repente percebo que ele canta comovido. A música é “Vilarejo”, de Marisa Monte, Carlinhos Brown, Pedro Baby e Arnaldo Antunes, e fala de uma vila bucólica onde cabe todo mundo. A vila é Palestina, Shangri-lá, terra de heróis, lares de mãe, frutas no quintal, onde o tempo espera, as janelas estão abertas, em todas as mesas tem pão, flores enfeitam caminhos, destinos, vestidos. Ele canta e me diz: “Mãe, esse lugar é Porto Velho”. 

Sem considerar se Porto Velho merece tanta honra, lembro que nos anos 70 o lugar idílico era cantado como a casinha branca no pé da serra, a casa no campo com meus livros e discos e nada mais. O pós-modernismo se decepcionou com a felicidade solitária, tomou Prozac para suportar a casa no campo e conclui que sem o vilarejo-Shangrilá não há felicidade. Não basta ter o pão na minha mesa, quero-o também na do vizinho. Já não me basta o espelho, quero o toque, a gente, a comunidade. A série americana Friends traduz a sede por comunidade do final do século 20 e início do 21. Não me basta a vida adulta, a independência financeira e sexual, preciso de friends, ou seja, quero graça, quero um ombro pra chorar, preciso de relacionamentos dessexualizados, honestos e reais. Na igreja, não me bastam nucas, quero seres humanos. 

No evangelho recuperamos a noção verdadeira da individualidade. Em nenhuma outra sociedade além das diretamente influenciadas pelo evangelho reformado existe a noção funcional do indivíduo, com seu valor inerente, um enredo seu, que não é outorgado pelo grupo a que pertence.1 Talvez seja esse o maior legado da Bíblia à civilização ocidental e, de maneira especial, à geografia protestante: eu tenho valor em mim mesmo, a vida em si já me torna importante e único. Graças a essa noção temos direitos humanos também intrínsecos. Um cristão libanês, dr. Habib Malik, foi o principal articulador da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que não seria possível sob nenhum outro guarda-chuva ideológico. 

Mas no evangelho recuperamos também nossa significação social. Não posso ter fé sem o outro, não amo a Deus, a quem não vejo, se não me torno samaritano para quem vejo. No cristianismo o mesmo “eu” resgatado pelo valor que Deus me atribui se dilui, se nega, dá a outra face, se torna escravo do outro, é pregado na cruz, cai na terra e morre. O mesmo eu que o amor de Deus me fez descobrir, perde a significação diante do amor do outro. Apenas no cristianismo descobrimos nosso significado — além do nosso eu, somos o outro. E passamos a ser a casa de Deus. Nosso corpo é o templo do Deus que ama, que acompanha e contém em seu coração toda a humanidade. Só em Deus podemos obter a “unimultiplicidade, onde cada homem é sozinho a casa da humanidade”, como cantam Tom Zé e Ana Carolina. Somos templo do Senhor e, portanto, casa das dores, das histórias, das esperanças da humanidade. Edgar Morin me ajudou a entender a tri-dimensionalidade do ser humano. Segundo ele, somos espécie (corpo), indivíduo (alma) e sociedade (espírito)…2

Se andarmos no Espírito, Ele criará em nós, individualmente e pela fé, a sociedade de acordo com Ele. O vilarejo nesse caso não é apenas o bairro onde eu moro, a vila que tenho de cruzar, ou a cidade ao meu redor, mas é a realização da minha própria experiência com Deus. Minha fé concreta recria a vila, desmilitariza a favela, humaniza a cidade.

Notas
1. “É só nesta civilização que a idéia do indivíduo foi apropriada ideologicamente, sendo construída a ideologia do indivíduo como centro e foco do universo social.” (Roberto DaMatta. Carnavais, malandros e heróis. Editora Rocco.)
2. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Unesco, 2002. 

• Bráulia Ribeiro é missionária em Porto Velho, RO, e presidente da JOCUM — Jovens com Uma Missão.