A (Des)Unidade Protestante do Brasil

Foto realizada em Campinas na última reunião da Aliança Evangélica Brasileira nos dias 22 e 23 de agosto de 2011
Foto realizada em Campinas na última reunião da Aliança Evangélica Brasileira nos dias 22 e 23 de agosto de 2011

 Por Robinson Cavalcanti 

Nos últimos anos tenho colocado a minha (já escassa) reserva de idealismo apostando na criação da Aliança Cristã Evangélica do Brasil, como um órgão aglutinador e representativo do nosso, digamos, “mui plural”, universo protestante nacional. E tem sido uma mão de obra. Creio que foi muito mais fácil para Noé levar a bicharada para dentro da Arca. Haja desinteresse e haja desconfiança! Quem está fora não quer entrar, e, até, quem está dentro, quer sair… E lembrar que um dia tivemos uma história tão diferente! O espírito de respeito e cooperação entre os pioneiros, e no longo período do “consenso evangélico”; a unida reação a deliberação do Congresso de Edimburgo (1910) de excluir a América Latina como campo missionário; a unida participação no afirmativo Congresso do Panamá (1916); o unido trabalho da Comissão pela Escola Bíblica Dominical (produzindo material para várias denominações); o unido trabalho da Confederação Evangélica do Brasil (CEB); a unida participação nas Conferências Evangélicas Latinoamericanas (CELA’s); os ainda esforços unificados dos Congressos de Evangelização da América Latina (CLADEs). Parece que era algo profundo e duradouro, e, ao mesmo tempo, parece que nunca existiu.

O primeiro “baque” foi o ciclo de ditaduras militares repressivas em nosso continente, que levou ao fechamento de instituições interprotestantes, como a CEB, justamente pelo profetismo que era uma face da sua missão integral. No Brasil, foi um hiato de duas décadas entre o fechamento da CEB e a criação da Associação Evangélica Brasileira (AEvB), com uma descontinuidade de gerações e de propostas, depois da “amnésia compulsória” em relação ao seu passado de responsabilidade social a que as igrejas foram submetidas pelo Estado e por suas próprias cúpulas cooptadas pelo Estado. Após os Congressos Brasileiros (CBE’s) e Nordestinos (CBN’s) de Evangelização, a AEvB teve o seu valor, mas o modelo centralizado na figura do líder levou a um rápido declínio, acompanhando a crise do líder.

É claro que as polarizações entre o Fundamentalismo e o Liberalismo respingaram entre nós, apesar da nossa sólida maioria e hegemonia Evangélica (l), ou, durante a Guerra Fria, entre “direita” e “esquerda”, mas as Igrejas Históricas (de Migração + de Missão) passaram a ter a companhia, no mercado religioso, das, nem sempre cooperativas, igrejas pentecostais, e, depois, das nada parecidas e nada cooperativas, igrejas neo(pseudo)pentecostais. A velha e respeitável institucionalização protestante foi sendo substituída pelo estrelismo personalista dos caudilhos religiosos e seus clãs, com o coronelismo da cultura nacional sendo “revitalizado” pelos superstars da cultura importada. O caldo, rapidamente, entornou, e no lugar da cooperação e da busca pela unidade, acelerou-se o divisionismo, e baixou o espírito de “cada um por si e Deus por todos” (e satanás por alguns…).

Está difícil fazer essas estrelas se juntar, se sentar, dialogar, construir um processo coletivo, pois cada um está acostumado a impor a sua vontade em seu feudo, e humildade é um artigo cada vez mais escasso. Minha experiência como presidente da seccional de Pernambuco da Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil (OMEB) apenas reforçou a minha percepção de que os pastores formam uma classe dividida, concorrente, e pouco ética nos relacionamentos entre os seus egos inflados, movidos a holofotes. Os Conselhos de Pastores por esse Brasil a fora (malgrado o idealismo de alguns) tem-se transformado em comitês eleitorais para uma participação política corporativa e clientelista. Tem cidade com três Conselhos de Pastores, cada um alinhado com um partido político diferente.

Quando estive em um dos últimos grandes eventos promovidos pela AEvB, percebi, claramente, que havia animais demais para a Arca, que uns não queriam entrar na Arca, porque não se sentiam bem na convivência com outros bichos, e que havia animais que, para o bem geral de todos os bichos, não deveriam entrar na Arca.

Hoje é muito provável que não possamos mais construir uma Arca só, mas vamos terminar na pluralidade de uma flotilha, com diversas Arcas, barcos e solitárias jangadas.

Tenho um sonho mais modesto para a nascente Aliança Evangélica: que ela seja uma das Arcas, menor em tamanho, mas que termine por abrigar os setores sérios, éticos e sadios do protestantismo brasileiro. Algo até fácil de encontrar nas bases. Quanto às cúpulas…

Não podemos viver sem sonhos, e sem trabalhar para transformá-los em realidade!

Bispo Robinson Cavalcanti

Fortaleza (CE), 26 de agosto de 2011,

Anno Domini.

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2 comentários

  1. Diz o Robson:

    “Minha experiência como presidente da seccional de Pernambuco da Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil (OMEB) apenas reforçou a minha percepção de que os pastores formam uma classe dividida, concorrente, e pouco ética nos relacionamentos entre os seus egos inflados, movidos a holofotes.”

    Creio que isso resume toda a questão. O personalismo eclesiástico hoje é tão grande que ficou impossível dialogar. O pluralismo é bem-vindo, creio; não gostaria que houvesse um papa protestante; mas é fundamental que o pluralismo não exclua o diálogo fértil, o compartilhar de ideias, e o exercício da comunhão.

    excelente blog!!

    http://www.logosemithos.blogspot.com

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