Lausanne III – Cidade do Cabo 2010

Fabricio Cunha faz parte do Comitê de Lausanne e é envolvido com a Fraternidade Teológica Latino Americana. Esta na Cidade do Cabo na África do Sul participando do Congresso Internacional de Evangelização Mundial conhecido como Lausanne III. Fabricio esta com um diário de bordo, escrevendo nas noites sobre as experiências das plenárias e do cotidiano da comitiva brasileira. Recomendo o acesso nos próximos dias ao blog dele. Escreve os textos com uma pessoalidade, “Fra(n)queza” e sensibilidade que vale a pena ler. Segue abaixo seu relato do segundo dia, onde no final conta a história de garota de 17 anos que falou na plenária. Nas palavras de Fabricio: “Gyeong Joo Son só tem 17 anos, mas o mundo não é digno dela.”

O Segundo dia

Manhã

Começa cedo. “La alabanza” começa às 8h00. Em seguida vêm os pequenos grupos. Fizemos, juntos, uma breve exegese do capítulo 1 de Efésios. Como foi bom reencontrar com esse texto e ver Paulo relativizando os conceitos de bênção, riqueza e poder que acreditamos ser os corretos nos dias de hoje. O expositor da manhã foi o diretor nacional da Youth For Christ do Sri Lanka, Ajith Fernando. Fez uma exposição óbvia, salvo alguns poucos insights, do texto referido. Apesar de novo, já fui em muitos congressos internacionais e, sinceramente, minhas expectativas nunca são altas demais. Por conta da grande diversidade, os preletores tendem a reduzir um pouco o potencial de impacto de suas participações para tentar incluir a todos em sua abordagem. Mais uma vez não fui surpreendido por algo que tenha me causado espécie. Logo voltamos aos pequenos grupos para “ruminarmos” o texto que acabou de nos ser apresentado, mas que já havíamos lido antes.

A riqueza, até então, tem sido o Pequeno Grupo. O meu tem 5 pessoas: eu, fazendo a moderação, Francisco, presidente da Igreja Evangélica Livre da Espanha, Ylídio, pastor de 71 anos, fundador de uma denominação na Venezuela que tem mais de 30 mil membros, Dionísio, que trabalha preparando jovens pregadores da Colômbia, em parceria com a Fundação John Stott e Corina, uma alta executiva da Visão Mundial, que é responsável por toda área de Advocacy da instituição em todo mundo e trabalha em parceria com a ONU. O grande privilégio para mim, tem sido dividir histórias, orações e estudos com esses irmãos tão diferentes e com ministérios tão profícuos e longevos.

Em seguida o tema abordado foi “Defendendo a verdade de Cristo num mundo globalizado e pluralista”. Os preletores foram, respectivamente, o coreano Carver Yu, o alemão Michael Herbst e o britânico Os Guiness. Todos muito bem preparados e falando com propriedade e efusividade o “mais do mesmo”. Tenho conversado com o Ricardo Barbosa sobre a ansiedade dos jovens pelo novo, ao que ele me disse de seu apego cada vez maior ao “mais do mesmo”, às raízes do Evangelho puro e simples, ao apego pelas coisas de sempre que representam o fundamento de nossa fé e da fé histórica de nossos pais. Concordo com ele. Todavia abordagem fundamentalista da absolutização da verdade, me assusta um pouco. Não me vejo encaixado nesse modelo de pensamento, mas isso fica pra um outro texto.

Tarde

Acontecem cursos livres, os multiplexes.

Optei por ficar conversando com um grupo de brasileiros num corredor, o que gera sempre resultados ricos. Tivemos uma reunião de toda delegação Latino-americana. Sempre muito alegre, barulhenta e pouco pragmática. Brinquei com o Wilson Costa que alguém iria reclamar de alguma coisa no congresso, contagiar boa parte do grupo, que decidiria escrever uma carta/documento de repúdio e crítica à Lausanne. Dito e feito. Ri muito, mas fiquei em silêncio dessa vez. Acho que estou amadurecendo e preferindo os campos minoritários para exercer alguma influência.

Mas eles têm muita razão. Toda a delegação da AL não chega a 400 pessoas, isto é, é menos de 10% de todo congresso. Teremos somente dois preletores nas plenárias principais e bem poucos nos multiplexes e seminários. Só a delegação americana é composta de mais de 600 pessoas, sendo que tinham a cota de 400. Sinto confessar, mas me acostumei com isso.  A batalha pela representatividade numérica e nas prédicas, parece-me uma briga que não vale à pena. Precisamos usar bem o que temos e fazer nosso dever de casa por aqui, em nosso contexto, estabelecendo parcerias estratégicas principalmente com irmãos de outras realidades similares, gente do hemisfério sul, da área pobre, mas crescente e pensante. Acreditem, o nível de reflexão dos teólogos latino-americanos é altíssimo. Vale-me muito mais uma conversa de corredor com o René Padilla, Samuel Escobar, Tito Paredes, Vitor Rey, Harold Segura ou Ruth Padilla, do que uma plenária principal. E é nisso que invisto meu tempo.

Noite

Celebramos a fé, oramos e cantamos à luz de testemunhos, vídeos e apresentações artísticas de irmãos da Ásia.

A HISTÓRIA

Desde que cheguei, notei uma quantidade de cadeiras separas num local, sem que ninguém se sentasse nelas. Num auditório completamente cheio, não consegui entender o porquê daquelas cadeiras ali, vazias. O programa da noite de hoje foi aberto pelo grupo de referência do Comitê de Lausanne, do qual faz parte o brasileiro Valdir Steuernagel. Seu líder, Doug Birdsall, informou-nos que a delegação da China de fato não teve a autorização do governo para fazer a viagem até a África do Sul. Recebi um pedido de oração na semana passada, explicando que estavam tendo dificuldades para conseguir o visto de saída. Li e deletei. Não dei quase nenhuma atenção. Hoje, Doug nos contou que aqueles irmãos têm sofrido com a perseguição à igreja protestante séria da China e que, mesmo impedidos de vir até aqui, estavam orando por nós e nos mandaram uma carta com alguns textos bíblicos (Fp 1. 29; IICo 6. 3-10; Tg 1. 19; Jô 6. 10; Sl 42) e uma gravação de seu coral cantando “O Amor do Senhor pela China”. Chorei muito, muito mesmo. Leia os textos, leia a letra da música, deixe a sua melodia penetrar no mais profundo do teu coração e tente sentir o soco do constrangimento, como senti hoje à noite. Enquanto não me dou nem ao trabalho de ler com atenção a um pedido de oração de irmãos preciosos que têm dado a sua vida de fato para a proclamação do Evangelho, eles nos mandam uma carta de oração e uma música de clamor.

A FRASE

“O sangue dos santos rega a terra e faz, dela, brotar vida.”

A PESSOA

A noite já estava para terminar suficientemente profunda e emocionante depois dos vídeos das igrejas asiáticas, dos testemunhos de pessoas perseguidas e da carta da igreja da China, quando entra uma menina no enorme palco principal do evento. Pequena, franzina, oriental. Aparentava 16 ou 17 anos. Depois de tanto impacto e de um dia bem cansativo, não dou muita atenção.  A voz doce e firme da menina vai ganhando meus ouvidos quando diz que nasceu na Coréia do Norte e teve que fugir com a família pelo fato de seu pai estar sendo perseguido pela ditadura. Refugiados na China, encontram-se com Cristo e se convertem. Sua mãe, grávida do segundo filho, morre de leucemia. Em seguida o pai é descoberto, detido, deportado e preso na Coréia. Ela fica sozinha e é cuidada por um pastor americano e sua família, que residia na China. Poucos anos depois, seu pai é solto e volta para a China. O tempo de prisão não arrefeceu a sua fé, pelo contrário, serviu como combustível para inflamar seu coração para continuar vivendo e transbordando sua fé na Coréia do Norte, seu país. Pediu que a filha continuasse por um tempo com a família da China para que ele levasse um carregamento de Bíblias para a Coréia. Ele o fez, mas foi novamente preso e , dessa vez, executado.

Uma menina de 17anos, completamente órfã.

Quando a família se preparava para voltar aos EUA, a menina teve um sonho onde via Jesus. Ele a dizia: “Gyeong Joo, não tenha medo. Eu estou contigo e quero que vá para a Coréia do Norte falar do meu amor. Por que ainda está esperando?” Ela acordou decidida a ficar na China e a se preparar para voltar para seu país, compartilhar o amor de Deus que alcançou e transformou sua família.

Pergunto-me. Depois de tanto sofrimento e desgraça, como uma menina tão nova, tão frágil, consegue ver a beleza do amor de Deus a ponto de entregar-se até às últimas conseqüências? Só quem conhece de fato esse amor saberá me responder.

Ela terminou dizendo: “Vou para a Coréia do Norte expressar o amor de meu Deus, honrar o sangue de meu pai e o de meu irmão, Jesus Cristo.”

Silêncio. Ela começa a chorar. O rosto de menina do início, que transformou-se no de uma heroína enquanto contava sua história, voltou a ser rosto de menina enquanto chorava. Chorei junto com ela. Queria muito abraçá-la bem apertado, enxugar suas lágrimas e lavar seus pés. Um pastor chinês o fez e senti-me representado.

Escrevo ao lado de minha cama, mas não tenho coragem de deitar-me nela. Como um ato simbólico de honra aos meus irmãos chineses, vou deitar-me e dormir essa noite no chão. Como ato simbólico de honra e amor pela pequena coreana, derramo as minhas últimas lágrimas da noite.

Gyeong Joo Son só tem 17 anos, mas o mundo não é digno dela.

Fabricio Cunha

Saiba mais sobre Cape Town 2010 e sobre o Movimento de Lausanne.


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