Os mansos herdarão a terra

obama

Resisti ao fuso horário e na madrugada do dia 5 de novembro de 2008, sem um pingo de sono, acompanhei a vitória de Barack Obama. Chorei emocionado. Eu era cidadão do mundo, por isso vibrei como se festejasse uma final de Copa do Mundo. Senti-me irmão de todas as nações, tribos e povos que celebraram o exato momento em que terminou a votação na costa do Pacífico e as redes de televisão declararam a vitória de Obama.

Engasguei quando vi Jesse Jackson, o amigo que abraçou Martin Luther King Junior antes de sua morte, com os olhos encharcados de lágrimas.  Como um raio, lembrei-me de 3 de abril de 1968, na véspera do seu assassinato, Martin Luther King pregou como um profeta:

“Bem, agora não sei o que me acontecerá. Teremos alguns dias muito difíceis pela frente. Não tem importância para mim agora, porque eu já estive no topo da montanha. Não me importo. Como qualquer um, eu gostaria de ter vida longa. Longevidade tem o seu lugar. Mas não estou preocupado com isso agora. Eu só quero fazer a vontade de Deus. E ele tem me deixado ir ao topo da montanha, já posso enxergá-la; eu já vi a terra prometida. Talvez não chegue lá com vocês. Mas quero que saibam hoje à noite, que nós, como povo alcançaremos a terra prometida. Estou feliz nesta noite. Não estou preocupado com nada. Não estou com medo de nenhum homem. Meus olhos já viram a glória da vinda do Senhor.”

A eleição de Obama cumpriu esta profecia. Equivale, na história, ao dia em que Nelson Mandela foi libertado na África do Sul. Portanto, a festa não é só estadunidense, mas de todos os que amam a liberdade. As gerações futuras mencionarão o dia 4 de novembro de 2008 com orgulho. Será o dia em que foram curados os vergões deixados pelo chicote da escravatura; quando intolerância e preconceito perderam força; o dia em que as escravas trocaram seu lamento pelo riso; dia em que os negros puderam andar de cabeça erguida, sem se sentirem diminuídos pelo ódio racial; dia em que caiu por terra a antiga e estúpida teologia que ligava a maldição de Cã, filho de Noé, aos afro-descendentes.

Enquanto pregava em uma igreja pentecostal no sul dos Estados Unidos, acompanhei o pastor numa visita a um senhor, membro de sua comunidade que havia sido hospitalizado. Na enfermaria, o pastor comentou que notara sua ausência e perguntou se ele tinha algum motivo para faltar aos cultos. O doente respondeu que não retornaria enquanto negros continuassem freqüentando as reuniões. “Mas, eles também são filhos de Deus”, retrucou o pastor. “Não, os negros não são filhos de Deus porque nenhum deles tem alma”, respondeu o pobre homem. Envergonhado, meu amigo abreviou a visita; no trajeto de volta não trocamos nenhuma palavra.

A Ku Klux Klan não prevaleceu. Rosa Parks, a costureira que teimou em não ceder o lugar no ônibus para um branco no Alabama, sorri de alegria. Fez-se justiça a Medgar Evers, covardemente assassinado no Mississipi. Mais uma vez venceu o bem na longa, oblíqua e muitas vezes esburacada, estrada da humanidade. Jesus Cristo tinha razão: “os mansos herdarão a terra”.

Godspeed, Barack Hussein Obama!

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

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3 comentários

  1. Esse é gênio, transcende qualquer fronteira da igreja e presenteia o mundo com reflexões poéticas e filosóficas.
    Os circulos religiosos não comportaram a grandeza e brilhantismo desse filho de Deus. Intelectualidade inconfundível, literatura que rompe os limites da mediocridade, espiritualidade de servo que se recusa a ignorar o que se vê na beira das estradas da vida. Esse é Ricardo Gondim!

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