Que fim levou o Sagrado? (Expo Cristã)

Texto gera texto, pensamento leva a pensamento. Uma coisa puxa outra. Resenhas, por exemplo, me convidam às vezes a orar e compor (ou escrever aqui no Cristianismo Criativo). Por exemplo, acabei de ler uma entrevista com o escritor catarinense Deonísio da Silva, que recentemente lançou seu sétimo romance, Goethe e Barrabás, pela Editora Novo Século. Sujeito muito interessante o Deonísio. Além de escritor, professor universitário, é ex-seminarista católico e autor de mais de trinta obras, como Mulher silenciosa (1981), A cidade dos padres (1986), Teresa (1997) e Os guerreiros do campo (2000), além de estudos sobre etimologia, como De onde vêm as palavras (1997).

Bom, apresentado o dito cujo, ouçamos o que ele diz (em entrevista dada a Luciano Trigo, no Portal G1):

       A principal carência do mundo hoje é de recolhimento, de meditação. Igrejas e templos foram transformados em outra coisa, em silos, depósitos. Onde você busca a transcendência? Nos templos e igrejas? Muito raro que lá você sinta isso. No cinema e no teatro, na leitura, nos museus… Mas nas igrejas? Acho que não”.

Caramba, sô, que pedrada! Que fim levou o sagrado? Onde foi parar a transcendência? Se isso é fato no ambiente católico, o que dizer dos nossos encontros evangélicos movidos a adrenalina (pseudo) religiosa pura? Não cabe silêncio, nem cânticos de lamento (metade dos Salmos) ou confissão de pecado, depois de um sermão ou desafio. Não se preocupa mais com o conteúdo litúrgico (que quer dizer apenas “o que fazer e cantar durante o culto “, mas com a necessidade de agradar ao consumidor cristão… aliás, esse é o nome de uma revista dirigida ao mercado gospel, a gente que, como eu – preciso admitir – produz música para as igrejas e circula por elas cantando, falando etc.

Hipocrisias descartadas, já que estou no meio dessa canjica, fui à ultima edição da Expo Cristã dirigir um tempo de louvor no lançamento de e uma nova Bíblia (Almeida 21, Editora Vida Nova) e, depois desse evento importante, dei uma circulada na feira e confesso que saí meio tonto, vesgo, enjoado, triste e… cansado de tanto lixo (literalmente, no chão) e nas vitrines (metaforicamente falando). Não foi exatamente o excesso de informação, mas de deformação que me deixou nauseado: livros de auto-ajuda travestidos de “vida cristã “, quinquilharias “gospel” de todo tipo e espécie, desde adesivos para o pára-brisa do carro (“Se é crente, buzine! “, “Ora que melhora!”) até bugigangas mais exóticas como …ah, deixa pra lá! A Bienal no Livro, semanas antes, foi bem mais edificante! Havia mais transcendência por lá!

Creio que é a minha ingenuidade morena que me decepciona! Se é raro e árdua tarefa achar silêncios convidativos nos templos (!) evangélicos, períodos de louvor contemplativos nos cultos evangélicos, sermões que me sejam mais que a) promoção/contabilização de culpa (falsa e verdadeira), b) sociologização/psicologização rasa das Escrituras (como, amigos pastores, a gente cai fácil fácil nessa!), o que eu poderia esperar de uma ” feira para o consumidor cristão”?

Brian MacLaren, um teólogo tido como “herege e danoso  por muitos nas fronteiras mais conservadoras – para não dizer fundamentalistas – postou um vídeo no You Tube no qual ataca profeticamente isso que a gente costuma chamar de “indústria do louvor “.  Tremi quando o ouvi falando no perigo de transformarmos o tal Líder de Louvor em um mero manipulador de auditório (que espera, anseia, busca ser manipulado). “Arte e propaganda são coisas bem distintas”. O que chamamos de arte cristã, em geral, é mera ferramenta de auto-promoção e marketing pessoal!

Um dia ouvi o Dr. James Houston chamar Billy Graham de “cristianismo pop”. Não entendi. Não gostei, de cara. “Billy Graham não é Jimmy Swaggart”, eu pensei. Depois, escarafunchando a fala profética e filosófica dessa homem de Deus – contemporâneo de C.S.Lewis e Tolkien, em Oxford, fundador do Regent College, no Canadá – concluí algo meio óbvio: se o Papa é pop, cantaram os Engenheiros do Havaí, Billy Graham idem! Os dois, nas suas abordagens de massa, andam no fio da navalha, na tênue linha do íntegro e do manipulativo, como eu mesmo, confesso. Que perigo cair para o lado roto da bagaceira! É como se os evangélicos estivessem imitando (resgatando) o que há de melhor da tradição cristã do catolicismo. Na minha opinião, o movimento monástico, a Mística, os Pais e Doutores da Igreja – e os católicos (os irmãos carismáticos, sobretudo)  se encantando com nosso pior: “Vamos tirar o pé do chão, irmãos!”

A culpa não é minha. Falem mal do Deonísio da Silva e sua mania de me provocar. Eu não sei onde foi parar o sagrado, bolas!

Gerson Borges é um carioca-paulista, pastor-músico, flamenguista-são paulino, que não sabe mais se é pop ou litúrgico, mas morre de fome de Deus, de silêncios, de espaços verdes e de amizades longas.

Texto extraído do site Cristianismo Criativo

 

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