Da série memórias de minha infância 01 – Velas e lembranças

Tirando a poeira do teclado, escrevo pela primeira vez este ano. Não escrevi sobre o natal passado e tampouco a passagem para 2007. Porem quero escrever lembrando do dia de finados. Estranho né? Para quem esta em fevereiro, querer escrever sobre o dia dos mortos em novembro. Mas a memória me veio quando lembrei que quando criança, por cerca de três meses tive que morar com meus tios no interior, eu morava nesta cidade, porem meus pais voltaram do interior para a capital, e eu tive que ficar para terminar o ano letivo, pois não encontraram vaga para mim em São Paulo. Minha vida era escola e brincar o dia todo e andar de bicicleta.

O dia de Finados nas cidades do interior é de grande respeito e imensa romaria para o cemitério. Muitos viam de longe para re-lembrar seus mortos. Em torno deste evento, que parava a cidade, um grande comércio se fazia ao redor da entrada principal da ultima moradia do corpo. Este comércio se estendia em barracas ao longo da avenida que por muitas vezes vi passar diversos cortejos. Meu tio tinha um armazém (uma mistura de quitanda e bar) na avenida do cemitério. Sendo que por diversas vezes víamos algum cortejo atravessando a avenida, vinda principalmente do hospital e do velório que ficavam na outra ponta da avenida, sendo que o outro lado da avenida de cerca de pouco mais de um kilometro, se encontrava o cemitério. Poderia ser a qualquer hora do dia, o comercio parava no momento, todos iam para a calçada da avenida prestar sua reverencia ao defunto, seja ele conhecido ou não. Como qualquer cidade do interior de maioria Católica, o dia de finados era o grande dia religioso para seus moradores.

Creio que tinha uns 9 ou 10 anos de idade, e para toda criança tudo era festa, e lá íamos eu e meu primo, mais por pura diversão e competição do que por qualquer outra coisa, íamos vender velas na porta do cemitério. Incrível que com a venda de velas, ia a venda condicionada da caixinha de fósforo. Mas alguns não queriam comprar os fósforos, mesmo sabendo que eles não tinham. Eu e meu primo ficamos sabendo que muitos dos que usavam a caixinha de fósforo para acender as velas, deixavam-na em cima ou do lado do tumulo. Então alguém que ia acender uma vela para o parente morto, poderia comodamente pegar emprestado do jazigo ao lado a caixinha de fósforo. Porem isso arruinava os negócios meu e de meu primo que era vender além da vela, a caixa de fósforos também.

Para solucionar esse obstáculo comercial, eu e meu primo criamos uma estratégia de mercado. Íamos primeiro aos túmulos de alguma ala do cemitério e escondíamos as caixas de fósforos que tanto atrapalhavam nosso negócio. Com isto o peregrino com a vela na mão ao procurar nos túmulos vizinhos e constatar a falta dos fósforos e chegar a triste conclusão que não teria fogo para iluminar a alma do defunto, eu e meu primo envoltos em uma áurea mística para o momento, chegávamos com a solução para iluminar o caminho do morto. Neste dia vendemos o maior número de fósforo já visto em um dia de finados na cidade de Itápolis. Saímos no fim da tarde dando risada, com os bolsos cheios de dinheiro que iríamos gastar com doces e brinquedos.

Faz tempo que não vou a Itápolis, mas sempre que tinha a oportunidade eu visitava o cemitério para ir ao tumulo do meu avô. Não acendia vela, porem o sentimento de saudade tem brilho e é muito bem iluminado pela lembrança de minha infância com meu avô me ensinando a tabuada e me ajudando a fazer a lição de casa na primeira série. Lembranças são iguais ao sabor de algo que uma vez sentimos e gostamos, e por isso nunca será apagada da memória.

By Alex Fajardo

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