Arquivo da categoria: Textos de reflexões

Sejamos sinceros

Qualquer pessoa que reclame para si a “melhor interpretação”, a “correta hermenêutica”, a “exposição do Evangelho verdadeiro”, deve ser posta sub judice. 
O que temos são, no máximo, nuances cheios de impressões pessoais, de influência contextual, de intenções, de expectativas e de outras tantas influências externas que carregamos para nossa interpretação bíblica.
O melhor é, de forma sincera, dizer que “achamos que as coisas são assim”, expô-las como possíveis e vivê-las como quem acredita que são verdadeiras, semeando a vida com bom testemunho e nunca com imposição.
Acho assim…

escrito por Fabricio Cunha (o fotografado acima)

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Um até breve para o bispo Robinson Cavalcanti

Bispo Robinson Cavalcanti foi assassinado juntamente com sua esposa em 26 de fevereiro de 2012 em sua residência na cidade de Olinda em Pernambuco.

Em 2002 li pela primeira vez um livro dele, o relançamento feito pela Editora Ultimato de “Cristianismo e Política”. Entretanto fui ouvir ele pessoalmente apenas em 2007, (foto)  em São Paulo. De lá para cá estive presente em suas palestras/pregações pelo menos uma dezena de vezes, seja em Recife, Rio de Janeiro, São Paulo ou Campinas. Além de ouvi-lo, prazer em ler seus artigos e aprender.

Por duas vezes tive o privilégio de estar à mesa com ele e ouvir suas histórias. A primeira em 2010 em São Paulo, logo após sua pregação na IBAB, juntamente com Volney Faustini e os pastores Fabricio Cunha e Levi Araújo. Tivemos um jantar repleto de histórias trazidas pela memória do bispo e palavras de incentivo e sabedoria.

A última vez foi em Campinas no final de 2011 onde ele palestrou na FTL (Fraternidade Teológica Latino Americana) da qual foi um dos fundadores na década de 70. Fomos jantar com alguns pastores, entre eles Wilson Costa e João Leonel. Mais uma vez sua simplicidade e alegria estiveram presentes a mesa.

Nos últimos três anos esteve envolvido na gestação da recém criada Aliança Cristã Evangélica Brasileira. Participou de sua fundação no final de 2010 e era um de seus principais entusiastas. Tive o privilégio de estar envolvido com ele neste processo, achei graça quando me chamou de “ministro das comunicações” da Aliança Evangélica. O humor era algo que nunca lhe faltava.

Na terra deixou saudades. Porém para os que crêem na ressurreição do corpo, dizemos um até breve!

A (Des)Unidade Protestante do Brasil

Foto realizada em Campinas na última reunião da Aliança Evangélica Brasileira nos dias 22 e 23 de agosto de 2011

Foto realizada em Campinas na última reunião da Aliança Evangélica Brasileira nos dias 22 e 23 de agosto de 2011

 Por Robinson Cavalcanti 

Nos últimos anos tenho colocado a minha (já escassa) reserva de idealismo apostando na criação da Aliança Cristã Evangélica do Brasil, como um órgão aglutinador e representativo do nosso, digamos, “mui plural”, universo protestante nacional. E tem sido uma mão de obra. Creio que foi muito mais fácil para Noé levar a bicharada para dentro da Arca. Haja desinteresse e haja desconfiança! Quem está fora não quer entrar, e, até, quem está dentro, quer sair… E lembrar que um dia tivemos uma história tão diferente! O espírito de respeito e cooperação entre os pioneiros, e no longo período do “consenso evangélico”; a unida reação a deliberação do Congresso de Edimburgo (1910) de excluir a América Latina como campo missionário; a unida participação no afirmativo Congresso do Panamá (1916); o unido trabalho da Comissão pela Escola Bíblica Dominical (produzindo material para várias denominações); o unido trabalho da Confederação Evangélica do Brasil (CEB); a unida participação nas Conferências Evangélicas Latinoamericanas (CELA’s); os ainda esforços unificados dos Congressos de Evangelização da América Latina (CLADEs). Parece que era algo profundo e duradouro, e, ao mesmo tempo, parece que nunca existiu.

O primeiro “baque” foi o ciclo de ditaduras militares repressivas em nosso continente, que levou ao fechamento de instituições interprotestantes, como a CEB, justamente pelo profetismo que era uma face da sua missão integral. No Brasil, foi um hiato de duas décadas entre o fechamento da CEB e a criação da Associação Evangélica Brasileira (AEvB), com uma descontinuidade de gerações e de propostas, depois da “amnésia compulsória” em relação ao seu passado de responsabilidade social a que as igrejas foram submetidas pelo Estado e por suas próprias cúpulas cooptadas pelo Estado. Após os Congressos Brasileiros (CBE’s) e Nordestinos (CBN’s) de Evangelização, a AEvB teve o seu valor, mas o modelo centralizado na figura do líder levou a um rápido declínio, acompanhando a crise do líder.

É claro que as polarizações entre o Fundamentalismo e o Liberalismo respingaram entre nós, apesar da nossa sólida maioria e hegemonia Evangélica (l), ou, durante a Guerra Fria, entre “direita” e “esquerda”, mas as Igrejas Históricas (de Migração + de Missão) passaram a ter a companhia, no mercado religioso, das, nem sempre cooperativas, igrejas pentecostais, e, depois, das nada parecidas e nada cooperativas, igrejas neo(pseudo)pentecostais. A velha e respeitável institucionalização protestante foi sendo substituída pelo estrelismo personalista dos caudilhos religiosos e seus clãs, com o coronelismo da cultura nacional sendo “revitalizado” pelos superstars da cultura importada. O caldo, rapidamente, entornou, e no lugar da cooperação e da busca pela unidade, acelerou-se o divisionismo, e baixou o espírito de “cada um por si e Deus por todos” (e satanás por alguns…).

Está difícil fazer essas estrelas se juntar, se sentar, dialogar, construir um processo coletivo, pois cada um está acostumado a impor a sua vontade em seu feudo, e humildade é um artigo cada vez mais escasso. Minha experiência como presidente da seccional de Pernambuco da Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil (OMEB) apenas reforçou a minha percepção de que os pastores formam uma classe dividida, concorrente, e pouco ética nos relacionamentos entre os seus egos inflados, movidos a holofotes. Os Conselhos de Pastores por esse Brasil a fora (malgrado o idealismo de alguns) tem-se transformado em comitês eleitorais para uma participação política corporativa e clientelista. Tem cidade com três Conselhos de Pastores, cada um alinhado com um partido político diferente.

Quando estive em um dos últimos grandes eventos promovidos pela AEvB, percebi, claramente, que havia animais demais para a Arca, que uns não queriam entrar na Arca, porque não se sentiam bem na convivência com outros bichos, e que havia animais que, para o bem geral de todos os bichos, não deveriam entrar na Arca.

Hoje é muito provável que não possamos mais construir uma Arca só, mas vamos terminar na pluralidade de uma flotilha, com diversas Arcas, barcos e solitárias jangadas.

Tenho um sonho mais modesto para a nascente Aliança Evangélica: que ela seja uma das Arcas, menor em tamanho, mas que termine por abrigar os setores sérios, éticos e sadios do protestantismo brasileiro. Algo até fácil de encontrar nas bases. Quanto às cúpulas…

Não podemos viver sem sonhos, e sem trabalhar para transformá-los em realidade!

Bispo Robinson Cavalcanti

Fortaleza (CE), 26 de agosto de 2011,

Anno Domini.

Navegar é mesmo preciso ?

Não por poucas vezes me pergunto qual o sentido da vida. Que barco é esse que vim parar onde sou obrigado a remar, remar em busca de algo que não vejo.
O final da história dos remadores será a morte certa, todos no barco sabem disso. Mas “navegar é preciso”!

Para alguns “é preciso navegar” porque muito mais que alcançar o destino, o que vale é o percurso, como ele é feito e administrado, vivido, conduzido.
As remadas desse, são clássicas, pomposas e não desmedidas.
Em cada remada a busca é para colher algo de alguém, se relacionar, mas o destino não é totalmente certo para esse que rema, tanto que busca em cada dia seu final sem se preocupar com O final. Ele faz de cada dia sua meta. Ele sabe que ali no meio do mar ele vai plantar o que será colhido no futuro.

Para outros “navegar é preciso” pela ansiedade de saber o que nos espera no destino final. Cada remada é reflexo da ânsia, da dúvida e do querer que todo aquele esforço tenha valido a pena ao final.
Suas remadas são fortes e profundas. Busca a velocidade, mas esse também não sabe o que o aguarda e por isso quer chegar rápido.
Só sabe trabalhar com coisas concretas, mas diferente do primeiro remador lá de cima, a possibilidade de haver algo lhe incomoda, mesmo não crendo muito nisso. Seu coração sofre da síndrome de Tomé.

Mas de que adianta crer que as remadas no tempo e no espaço é o todo e o tudo?

Pra que remar?

Melhor é ficar parado, viver da plena felicidade conquistada pela ignorância.
Mas isso é impossível, um vez você tendo existido como ser humano, sua consciência e inquietação será sua maldição ou glória.

Remar não é preciso, o que é realmente necessário é QUERER remar ainda que não se reme, é querer fazer bem, mesmo que às vezes não seja possível.
Não é preciso chegar em lugar nenhum, mas é preciso que ao chegar em qualquer lugar que seja tenha valido a pena, não pelo lugar, mas pela viagem feita.

Ao final de tudo haverá num só lugar dois lugares!

Para aqueles que fizeram a viagem valer a pena a cada instante, esses alcançaram o céu, para aqueles que remaram ansiosos pela chegada alcançarão o inferno da frustração.

A projeção da conquista transformará as remadas em amargor, dureza de coração.

Ser leve deixa tudo leve. Ser leve não leviano. Ser tranqüilo não relaxado, ser desapegado e não bobo.

Quero remar com leveza e tranqüilidade e ao chegar junto com TODOS “no destino” o inferno será para ALGUNS e para mim esse mesmo lugar será o céu.
É o que quero pra mim.

Encontrarei Jesus à beira da praia e lhe darei um abraço como meu Salvador. Para outros esse irreconhecido Jesus será um remador qualquer que chegou antes num barco que veio remando com um outro grupo com características semelhantes.

Terão encontrado sem, no entanto ter encontrado.

Nesse inferno, logo sairão novamente com remadas em busca da plena felicidade motivados pela ansiedade e inquietação. Achando que é nas coisas grandes é que mora a plenitude.

Ficarão assim eternamente.

Eu, porém aquietarei pelo que já conquistei pelo caminho. Eternamente quieto sem mais precisar remar. Olhando aqueles que chegam e se vão a cada tempo em busca de respostas que estão dentro deles mesmos, e a cada remada indo para mais longe de Deus e de si próprios.

Escrito pelo meu amigo Fabio Fino

Os Urubus Gospels da Internet

Ultimamente venho postando pouco neste meu blog, um dos motivos são as aulas e trabalhos no mestrado em Ciências da Religião que estou cursando na Universidade Metodista, um sonho que vem se realizando, desde que terminei a graduação em 2001. Entretanto, outro motivo é o desgosto que venho tendo com a internet, mais precisamente com blog`s de cristãos, ditos apologéticos, que apenas criticam igrejas e pessoas, e o fazem com sorriso nos lábios. Pessoas magoadas com igrejas, ou outros que alegam terem atingindo o nirvana espiritual e agora estão acima de tudo e todos, outros que quando faltam argumentos, partem para o ataque pessoal. Alguns fazem pelo simples diletantismo de zombaria, outros defendem com unhas e dentes suas posições. Outros, meninos com pouco mais de 18 ou 20 anos que alegam terem chegado ao máximo do conhecimento nesta vida e chegaram a conclusão de que a igreja é lugar para bobos, e dizem que estão libertos, todavia, sempre estão  justificando atitudes em seus blog`s  sobre o motivo de antes agirem assim na igreja, e agora agirem assado, ué, não estavam libertos, porque precisam se justificar? Outros que criticam os outros, os rotulando de fundamentalistas, mas agem da mesma forma, sendo fundamentalistas xiitas da apologia contra a igreja e pessoas de uma forma agressiva, com sangue nos olhos.

Fica este artigo, em momento mais do que oportuno, de Marcos Botelho, me parece que ele sofre desta mesma angústia,  e eu não conseguiria me expressar melhor do que ele. Eis o texto abaixo.

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“O profeta sente dor em mostrar os erros dos da sua casa.”

Tenho visto essa categoria aumentar a cada dia, e tenho que confessar que preciso lutar contra mim mesmo para não tornar-me um deles!

Os profetas sempre tiveram um papel fundamental no judaísmo e, no cristianismo, são como torres de vigias, quase nunca se encaixam nos padrões dos “sacerdotes” e estão lá para falar na cara os erros dos falsos profetas, sacerdotes, intérpretes. Os erros do povo de Deus.

Mas existe uma grande diferença entre um profeta e um cara que só gosta de criticar, o profeta é um cara que não se conforma com o erro, mas que ama muito a quem ele está criticando.

Certa vez ouvi a história de uma profetiza que entrou no gabinete pastoral e falou: Pastor, Deus vai destruir a nossa cidade esta semana por causa dos nossos pecados!

O pastor se levantou e olhou nos seus olhos e declarou: Isso que você esta profetizando é falso! E ela com os olhos arregalados perguntou o porque ele falava isso. Ele respondeu: Porque se você fosse profeta de Deus e esta mensagem fosse dele, você falaria isso com lágrimas nos olhos!

Nem sei se esta história é verdadeira, mas ela ensina algo que é muito verdadeiro: o profeta sente dor em mostrar os erros dos da sua casa. Não é prazeroso para ele, ele o faz porque Deus mandou e não tem saída, ele tenta sempre trazer o conserto e a reconciliação.

Com a internet, a voz dos que não eram ouvidos ganhou uma chance, mas com esta chance veio todo o tipo de “profeta” e frustrados religiosos.

Se você varre a sua casa e joga o lixo fora, você é uma pessoa que está se importando apenas coma a casa limpa. Mas se você vai com o seu lixo até o lixão e fica por lá observando os outros lixos, aí então você deixou de se importar com a casa e se encantou pelo lixo.

É isso que tenho visto em alguns blogs, vídeos, twitters aqui na internet. Pessoas que já saíram de casa para morar no lixão, onde ficam mexendo nos lixos gospels para encontrar os mais fedorentos e guardar para sua coleção. Assim, ficam o tempo todo mostrando aberrações gospels e se divertindo com o que Deus se entristece.

Apenas Urubus gostam de ficar o tempo todo em lixões ao redor das carniças. Este tipo de material não traz vida, não traz mudança social e religiosa, mas sim entretenimento bizarro, e isso os profetas nunca fizeram.

Tenho que confessar, eu sou por criação um cara muito crítico, mas não quero transformar meu blog, meu Twitter, minhas peças ou pregações em um lixão onde não me importe mais com a limpeza da casa e sim em sobreviver da carcaça de quem já esta morto. Deus me ajude a criticar com amor e a não perder o foco!

Fonte: Marcos Botelho, pastor de jovens da Igreja Presbiteriana de Alphaville e missionário da SEPAL

Publicado também em site da Sepal

Missão Integral: Um Convite à Reflexão

Este texto do doutor em Teologia e pastor presbiteriano Ricardo Quadros Gouvêa é um belo escrito para quem quer entender o que é e o que não é Missão Integral. O texto foi apresentado pela primeira vez na reunião da Fraternidade Teológica Latino Americana em fevereiro de 2010 em um encontro do núcleo São Paulo e uma segunda vez em maio de 2010 no núcleo Campinas da FTL. Em julho o texto foi disponibilizado publicamente no site da FTL, no qual este blog também publica abaixo. 

UPDATE: no final do ano de 2010 o texto foi incluído como um capítulo no livro O que eles estão estão falando da Igreja, organizado pelo próprio Gouvêa e publicado pela Fonte Editorial. O lançamento do livro aconteceu na Universidade Presbiteriana Mackenzie e pode ser conferido nesta reportagem neste blog. 

Missão Integral: Um Convite à Reflexão

I. Palavras Introdutórias

 
Muito já se escreveu sobre missão integral. Os livros recentemente lançados sobre o assunto, o de René Padilla e o de Ricardo Gondim, perfazem juntos uma boa síntese do que se entendeu teologicamente até hoje por missão integral e os problemas desse construto teórico, bem como de sua aplicabilidade na vida das igrejas evangélicas e dos movimentos evangélico e/ou evangelical.

Teremos em breve encontros em que debateremos estas obras com seus autores. Sendo assim, o que propomos para hoje? Proponho um exercício de reflexão teológica conjunta a partir de um texto que servirá meramente como ponto-de-partida, que não se pretende original ou inovador, mas sim esclarecedor.

Não sei, entretanto, se eu entendo bem o que quer dizer “missão integral” ou o que é a “teologia da missão integral”. Vejo discursos e práticas desalinhadas sob esse mesmo rótulo, e fico com a sensação de que há desinformação e dissonância cognitiva, o que pode e deve ser resolvido, além de uma salutar discordância e variação nuançada, o que é positivo, mas convida ao diálogo.

Este texto busca, portanto, ainda que modestamente, auxiliar na caminhada em direção a uma resposta acerca do significado do construto teórico teológico “missão integral”, tão importante na história da Fraternidade Teológica Latino-Americana.

Estou convencido que há dois estudos propedêuticos que se fazem necessários antes que exploremos o conceito de missão integral propriamente, tentando uma aproximação mais acurada de definição ou de identificação. Passo agora, portanto, a essas duas excursões breves em teologia filosófica ou teologia cultural ou ainda teologia apologética, como se dizia antigamente. Estas duas excursões lidam com as relações entre evangelho e cultura, primeiro e, depois, entre evangelho e política.

 
II. Evangelho, Cultura e Política: Duas Excursões Teóricas


1.      Evangelho e Cultura

Esta sempre foi uma relação de grande tensão na história do cristianismo. Hoje compreendemos que não poderia deixar de ser. Evangelho e cultura se distinguem, mas não é fácil distingui-los. O Evangelho não existe a não ser enculturado, isto é, contextualizado. Há quem queira separar o Evangelho da cultura, mas isso nunca existiu, e não pode ser feito. É da natureza do Evangelho ser cultural. O Evangelho já nasce inserido numa cultura, a cultura judaica, mas não se confunde com ela. Esta é a tensão infinitamente elástica que nos causa tantos transtornos: o Evangelho não é a cultura, nem mesmo a cultura judaica, mas só existe imiscuído e misturado com a cultura, de tal forma que não é possível extraí-lo e limpá-lo da cultura sem causar dano à natureza intrínseca do Evangelho e também à cultura. Se tentarmos distinguir cultura de Evangelho, fica um pouco de cultura, perde-se um pouco de Evangelho, e não se obtém um bom resultado.

A primeira transposição cultural sofrida pelo Evangelho foi para a cultura helenista dos tempos da chamada igreja primitiva. Essa transposição foi feita com razoável sucesso, mas não sem fortes traumas. É uma transposição que começa com Paulo, e é, portanto, sancionada pelo próprio Evangelho, pelas Escrituras Sagradas. Mas o Novo Testamento também já dá testemunho dos traumas e aflições causados pela transposição. O relativo sucesso do empreendimento deve nos fazer perceber as tremendas transformações sofridas pelo Evangelho no mundo helenista, e, em particular, a leitura de tendências neoplatônicas e semi-gnósticas que acabaram por preponderar no período patrístico, e acabaram por servir de base para a construção da teologia.

Uma segunda transposição acontece no período medieval, e posteriormente no período moderno, e sempre sofreu o Evangelho transformações, assim como transformou as culturas. Com o surgimento das nações-estado modernas, e com o crescimento econômico e populacional advindo das revoluções científica e industrial, surge um grande número de culturas ocidentais distintas promovendo novas tensões com o Evangelho herdado, e o trabalho missionário leva o Evangelho para culturas não-européias, que iriam absorver o evangelho misturado à cultura dos próprios missionários.

Os missionários das igrejas protestantes históricas trouxeram ao Brasil um Evangelho marcado pelos traços culturais de onde eles haviam partido. Foi só no século XX que a relação Evangelho e cultura passou a ser mais estudada e compreendida. Começou-se a perceber a enorme complexidade do processo enculturação do Evangelho, e se começou a falr, no fim do século XX, em contextualização.

O grande cientista da religião Helmut Richard Niebuhr, irmão do célebre teólogo Reinhold Niebuhr, foi um dos pioneiros nesse estudo, com o clássico Cristo e Cultura, onde distingue cinco diferentes possibilidades compreensão do relacionamento entre Evangelho e Cultura, que ele denomina: (i) Cristo contra a cultura; (ii) Cristo da Cultura; (iii) Cristo acima da cultura; (iv) Cristo e Cultura em Paradoxo; e (v) Cristo transformador da cultura. Niebuhr nos mostra como todos os cinco “tipos” (“tipos ideais”, como ele diz) foram praticados e implicitamente ensinados através dos tempos. No entanto, sugere que os primeiros dois são enganosos, distorções, o primeiro pela rejeição da cultura, e o segundo pela sua adoção não criteriosa ou sem qualificações necessárias. Eles representariam, grosso modo, os pólos fundamentalista e liberal. Os três outros tipos estariam, segundo o autor, mais de acordo com aquilo que o Novo Testamento propõe, o terceiro representando a posição tomista, o quarto a posição existencial-dialética, e o quinto a visão mais comum na teologia contemporânea.

Ao que me parece, a teologia da missão integral se propõe partidária, acima de tudo, da quinta possibilidade, de ver Cristo como transformador da cultura, sem negar a importância e o valor da cultura, como no caso principalmente do primeiro tipo niebuhriano, mas também do terceiro, típico do mundo evangélico conservador (que é em grande grau tomista sem saber disso). Trata-se, portanto, de trazer o Evangelho à cultura para redimi-la, não para alterá-la. Isso está de acordo com o que dissemos a princípio: o Evangelho só é verdadeiramente o Evangelho quando está enculturado, inserido na cultura e contextualizado, e só assim não é distorção.

Em suma, Cristo é mais, muito mais do que normalmente pensamos. Cristo significa uma vida melhor não só para o indivíduo, mas para a nação. O Evangelho propõe um mundo melhor, e nos convida a promover esta integração do Evangelho às culturas humanas em particular, e aos nossos projetos de civilização. Qualquer outra possibilidade é uma distorção alienante que retira do Evangelho seu escopo e seu poder transformador.

 
2.      Evangelho e Política

Há quem diga abertamente que o Evangelho nada tem a ver com política. Há quem deplore que se discuta o que se chama vulgarmente de “questões políticas” na igreja. Quando vemos o péssimo exemplo dos políticos evangélicos, até entendemos a razão desse tipo de ojeriza à política. Mas, em geral, é fruto de uma pregação evangélica distorcida que aliena as pessoas, fazendo-as pensar que as questões políticas e sociais nada têm a ver com espiritualidade.

A relação entre cristianismo e política não deve ser confundida com a relação entre igreja e estado. A separação entre igreja e estado foi uma preciosa conquista da democracia. Ela garante a liberdade de culto e garante que, na ausência de uma religião oficial do estado, nenhuma instituição religiosa será privilegiada pelas leis do país. Isso nada tem a ver, no entanto, com a relação entre cristianismo e política. O verdadeiro cristianismo, me parece, está envolvido nas questões sócio-políticas até o pescoço. Ou talvez deveríamos dizer: até a cabeça, que é Cristo.

Sabemos que a Bíblia e o Evangelho nos convidam a um sério engajamento com os problemas sociais, econômicos e políticos. O quietismo supostamente presente em Romanos 13 empalidece ante as inúmeras passagens bíblicas nos convidando à denúncia e ao combate das injustiças sociais e os desmandos políticos. Os estudos contemporâneos sobre os tempos de Jesus e sobre sua pessoa e ministério, como os de Marcus Borg, John Crossan, Richard Horsley, e N. T. Wright, entre outros, tornam patente o fundamental elemento sócio-político de sua missão.

Isso nos convida a entender o que é a ação política que tem lugar no contexto do Evangelho. Não estamos falando de política partidária, que visa a obtenção e manutenção do poder. A ação cristã na política partidária é, em geral, fisiológica e clientelista, em benefício de igrejas, inclusive, e é, em suma, má política e mau cristianismo. Estamos falando de cidadania e consciência política do cidadão que leva a envolver-se nas questões sócio-políticas que o afetam diretamente, e particularmente a formulação e promulgação de leis que o beneficiam ou não, enquanto cidadão.

Esse é o problema da ação social assistencialista, que é o que os evangélicos praticam, em geral, e que às vezes se confunde com Missão Integral e com consciência cidadã e sócio-política, quando não é. O assistencialismo não resolve os problemas sociais e políticos porque não atinge o cerne das questões, não desce às estruturas, não ameaça os poderosos. Pelo contrário, o assistencialismo se encaixa perfeitamente no modelo dos poderes opressores de uma sociedade. Por isso, as igrejas não são combatidas, porque não ameaçam esses poderes políticos e econômicos. Se o fizesse, seria perseguida.

O que seria, então, uma igreja engajada numa luta pela cidadania e pela conscientização sócio-política? Seria uma igreja que estimulasse os seus membros a protestar, por meios legítimos e não-violentos, como passeatas e abaixo-assinados, reivindicar ante as autoridades, e, por fim, exigir leis mais justas e ação governamental voltada para a melhoria das condições de vida dos menos favorecidos. Não é isso que acontece nas igrejas evangélicas.

Eu tendo a pensar que o que a FTL entende por Missão Integral implica em uma restauração da integralidade do Evangelho de Cristo, hoje obliterado nas igrejas evangélicas, por meio de uma compreensão da relação tensa e paradoxal entre Evangelho e Cultura que nos desafia com o poder de Cristo para a transformação da cultura, e por meio de uma compreensão da relação entre Evangelho e Política que nos faça perceber as dimensões políticas e sócio-econômicas da pregação de Cristo.
 

III. Via Negativa
 

Estamos prontos agora para iniciar nossa busca pelo sentido da expressão missão integral. Para fazermos esta busca juntos, proponho partirmos de uma ponderação invertida ou negativa. Em vez de nos perguntarmos “o que é missão integral”, perguntemo-nos antes “o que não é missão integral”. Faremos algumas sugestões que certamente auxiliarão na limpeza do terreno para uma edificação positiva mais adequada a seguir.

Então, comecemos. Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que:

 
1.      Missão integral não é “estratégia de evangelização”.

Eu peço perdão por iniciar esta parte com algo aparentemente tão banal, mas também tão fundamental. Vale dizer que eu mesmo já ouvi pessoas, em reuniões da FTL, manifestarem em suas falas, sem serem corrigidas, estar sob a sombra deste terrível equívoco. Não há equívoco mais contrário ao espírito da teologia da missão integral, em minha opinião, do que pensá-la como uma estratégia para a evangelização. É evidente que os adeptos da teologia de missão integral logo dirão que o próprio conceito de evangelização ganha novas cores a partir da adoção da noção de missão integral, que deixa de ser mera conquista de almas para Cristo, etc. etc. Porém, por outro lado, quem comete esse equívoco ainda não está, em geral, sob o impacto de uma nova compreensão do evangelho e da missão da igreja que a teologia de missão integral impõe. De qualquer forma, os evangélicos em geral tendem a cair ou recair em fórmulas gnósticas que separam e distinguem o material e o espiritual, o corpo e a alma, num espírito contrário ao do ensino neotestamentário. Vale a pena, portanto, lembrar e alertar que, acima de tudo, missão integral não é uma estratégia ou técnica de evangelização ou, o que seria ainda mais nefasto, de estufamento de igrejas.

 
2.      Missão integral não é “ministério de ação social”.

É possível que este seja o mais comum e mais perigoso engano no que se refere à noção de missão integral: confundi-la com o ministério de ação social de uma igreja local ou uma denominação. Não estamos dizendo que as igrejas não devam ter tal ministério. Muito pelo contrário. Ministérios eclesiásticos ou para-eclesiásticos de ação social podem ser um importante instrumento para a concretização de alguns aspectos do que chamamos de missão integral. Entretanto, esses ministérios não implicam que haja missão integral enquanto construto teórico teológico. Não se pode inferir da presença destas agências que haja missão integral, ou que elas trabalhem sob a égide da missão integral. E pode, por outro lado, haver missão integral sem que haja ministérios e agências de ação social, que são, no geral, de caráter meramente assistencialista, e não percebem a necessidade de instituir instrumentos políticos que possam gerar mudanças estruturais na vida sócio-cultural e político-econômica da sociedade. 
 

3.      Missão integral não é uma “teoria missiológica”.

Então, em um nível mais profundo, alguém poderia supor, ao perceber que este construto teórico afeta diretamente as práticas eclesiais, que se trata de um construto teórico de teologia pastoral, e, mais especificamente, de missiologia. A missão integral seria, portanto, uma compreensão específica de como a igreja faz missão, ou, numa redação muito melhor, como a igreja cumpre a sua missão. Seria, portanto, uma tese missiológica, mais ou menos nas seguintes linhas: a igreja cristã tem a missão de pregar o evangelho, mas esta pregação não se faz apenas com palavras, mas com atos de amor que manifestem o amor de Deus pelas pessoas através de nós, através das ações das comunidades cristãs. É evidente que tal compreensão da noção de missão integral está bem mais próxima do adequado que as concepções equivocadas descritas acima. Percebemos, todavia, que ela também tem problemas teóricos, enquanto definição conceitual da endiadys “missão integral”. Em primeiro lugar, esta compreensão pode sugerir que a missão integral é uma teoria missiológica entre outras, que uma igreja ou um cristão pode escolher ou não como sendo a sua missiologia. Tal concepção da endiadys como mera teoria missiológica, portanto, coloca em risco a percepção de sua necessidade, no sentido filosófico do termo, para a presença do evangelho. Em outras palavras, ameaça tornar a noção de missão integral algo extrínseco ao evangelho, e não intrínseco ou essencial no evangelho. E tal minimização da noção é algo que a teologia da missão integral nunca tolerou nem pode tolerar. Em segundo lugar, torná-la meramente uma teoria de teologia pastoral põe em risco a centralidade do conceito na constituição do evangelho, e essa marginalização do conceito é também algo que a teologia da missão integral nunca tolerou nem pode tolerar.
 

4.      Missão integral não é “diaconia”.

Antes de mais nada, vamos esclarecer que o termo “diaconia” não está sendo aqui empregado como sinônimo de ministério de ação social da igreja local, ou com a idéia de uma “junta diaconal” na igreja local, ou coisas semelhantes. O termo está aqui sendo empregado para discernir algo que parece ser essencial no ensino de Cristo, que é servir. Confundir missão integral com ministério de ação social é banal e totalmente equivocado. Confundir missão integral com diaconia é bastante desculpável, pois o que proponho aqui é uma filigrana, uma distinção muito sutil realmente, que já nos lança para o âmbito da teologia bíblica e sistemática, e nos aproxima de nosso ponto de chegada, que é a relação entre missão integral e o próprio evangelho de Cristo. Esclareça-se agora, e desde já, que o evangelho de Cristo não é apenas o perdão de nossos pecados pelo sangue derramado na cruz. É, antes, nossa reconciliação com Deus pela união mística com Cristo. É a presença de Cristo em nós, a presença do Espírito Santo que é o Espírito de Cristo, que determina nossa redenção, nossa justificação e nossa santificação. A presença de Cristo em nós implica necessariamente em discipulado, sob o senhorio de Cristo. Portanto, implica em diaconia, isto é, em serviço, assumir a forma de servo que o próprio Jesus Cristo assumiu. A diaconia é, portanto, aspecto essencial do seguimento de Cristo. Quem está em Cristo, serve a Deus e ao semelhante. Sem dúvida que a prática diaconal de cada cristão no seu seguimento de Cristo parece indicar uma percepção maior ou menor, mais ou menos consciente daquilo a teologia da missão integral sugere acerca da natureza do evangelho, mas não é uma marca inquestionável de que a noção de missão integral tenha sido assimilada ou que, em outras palavras, a missão integral tenha sido adotada. É bem possível que um cristão pense na diaconia como um aspecto da vida cristã que nada tem a ver com missão.
 

5.      Missão integral não é outro nome para a “teologia da libertação”.

Muitos podem pensar que a teologia da missão integral é uma versão evangélica da teologia da libertação, cujos principais nomes são majoritariamente católico-romanos. Há, de fato, mitos pontos-de-encontro. Porém, há também pontos divergentes, e isso desde os fundamentos. Enquanto a teologia da libertação tem sido descrita por muitos como uma leitura marxista da Bíblia, e as evidências apontam para a propriedade desta percepção acerca do referencial teórico fundamental da teologia da libertação, o mesmo não se pode dizer da teologia da missão integral, que se propõe, talvez um tanto ingenuamente, como uma teologia que é produzida apenas a partir da Bíblia, sem utilizar nenhum outro referencial teórico como chave hermenêutica. Seja como for, o importante pressuposto por detrás desta comparação é que a teologia da missão integral é uma teologia, assim como a teologia da libertação. O que significa dizer isso? Significa que a teologia da missão integral é uma interpretação geral do que é o cristianismo, do que significa ser um cristão, uma interpretação sobre o significado do próprio evangelho.


IV. Vórtice Elucidativo
 

Então, perguntemos agora, ainda que tentativamente, “o que é missão integral”? Para responder a essa pergunta, temos que aglutinar alguns importantes componentes da equação, e o faremos por meio de um progressivo afunilamento teórico.

 
1.      Missão integral é uma teologia bíblica do evangelho.

Já dissemos que missão integral é uma teologia. Isso é elucidador, mas fica a pergunta: que tipo de teologia? Parece ser uma teologia bíblica, isto é, uma tentativa de configurar esquematicamente a instrução bíblica a partir da própria Bíblia em vez de partir dos loci communes da chamada teologia dogmática ou sistemática. Há, porém, muitos tipos de teologia bíblica, com diferentes ênfases. Parece-me que a teologia da missão integral é uma teologia bíblica que centra toda a reflexão teológica na definição da natureza intrínseca do próprio evangelho, e quero propor, mais construtivamente agora, que ela o vê como o cumprimento da grande comissão de Cristo à luz do Mandato Sócio-Cultural do Gênesis.
 

2.      Missão integral é uma interpretação da Grande Comissão à luz do Mandato Sócio-Cultural.

O Mandato Sócio-Cultural surge logo nos primeiros versículos da Bíblia, compondo as primeiras ordenanças de Deus ao homem na Criação. Ler a Grande Comissão de Mateus 28 à luz do Mandato Cultural é vê-lo como resgatado diante da redenção em Cristo em face da queda. Em outras palavras, no esquema Criação-Queda-Redenção, o Mandato Cultural é recuperado na redenção em Cristo pela chamada Grande Comissão.

O Mandato sócio-cultural de Gênesis nos aponta para o projeto de Deus para a espécie humana. O projeto não está explicitamente descrito, mas implícito naquilo que a narrativa bíblica apresenta na forma de comando divino. Ele inclui: (i) apoio à família e à educação; (ii) apoio à pesquisa científica e tecnológica; (iii) promoção da nutrição alimentar e, por inferência, de todas as necessidades básicas para a sobrevivência e saúde de todos, sem exceção de ninguém; (iv) descanso e lazer para todos, e, por inferência, trabalho para todos.

Por meio da redenção em Cristo, a sua igreja se torna novamente capaz de fazer valer o mandato sócio-cultural. Isto é ler a grande comissão como retomada do projeto divino para a humanidade. Isso é, para mim, a principal base para a teologia da missão integral.
 

3.      Missão integral é a Missão da Igreja e a Teologia que serve à Igreja.

A missão da igreja é sua razão de existir. Ela existe para cumprir sua missão, sem a qual ela não tem sentido algum. Creio que a teologia da missão integral reconhece isso e propõe que é preciso compreender a missão da igreja em sua inteireza. Mais que isso, implica também que a teologia da igreja só faz sentido se feita à luz da missão da igreja, auxiliando-a no cumprimento da mesma. Se não é assim, é teologia que se impõe sobre a igreja, e que obriga a igreja a servi-la em vez de servir a igreja. É teologia que atrapalha a igreja no cumprimento de sua missão. Toda teologia que se preze, creio eu, deve ser feita a partir de dois motores: o estudo da Bíblia e a missão da igreja.

Alguns dizem que a missão da igreja é adorar a Deus. Paulo ensina, em Romanos 12, que o verdadeiro culto a Deus é oferecer-se em sacrifício vivo, o que implica em algo mais que a adoração e o louvor na compreensão popular dos conceitos. Alguns dizem, em contrapartida, que a missão da igreja é evangelizar o mundo. De fato, mas aqui cabe perguntar o que isso significa. Seria apenas levar os homens a se decidirem por Cristo? A se tornarem membros de igrejas evangélicas? Ou seria a difusão do Reino de Deus? Ou seria ainda mais, a infusão dos valores do reino na cultura e na sociedade?
 

4.      Missão integral é o próprio evangelho.

Missão integral é, talvez, outro nome que se pode dar ao próprio evangelho, como um cognome, ou um aposto. Como aposto, poderíamos dizer, por exemplo: “o evangelho de Cristo, isto é, a missão integral da igreja, deve ser o centro da pregação cristã”, e assim por diante.

Evangelho, como todos sabem, significa “as Boas Novas da salvação em Cristo”. Eu quero crer que é isso também que significa a missão integral. Se não fazemos essa identificação, talvez seja porque limitamos, por vício, o escopo do significado do Evangelho. Salvação em Cristo significa união mística com Cristo: Cristo em nós, operando nossa justificação e nossa santificação. Cristo em nós implica em uma transformação espiritual sendo operada; implica na imitação de Cristo; em outras palavras implica em discipulado. Na verdade, creio que é preciso afirmar que não há salvação sem a presença do Espírito de Cristo em nós, e, portanto, sem obediência, sem esvaziamento, sem tomarmos a forma de servo que Cristo tomou. Em suma, não há redenção em Cristo sem seguimento, sem discipulado, porque não há evangelho sem discipulado. Seguir a Cristo e servir a Cristo significa um engajamento naquilo que chamamos de missão integral.

Então, não há outro evangelho, a não ser este: a adoção e a participação na missão que só pode ser integral. Em hipótese alguma uma missão parcial ou fragmentária poderá ser chamada de evangelho. Não há missão parcial. E aqui está a grande falácia por detrás desta expressão, desta endiadys: missão integral, pois falar em missão integral pode fazer presumir que há outra missão cristã ou evangélica que seja também válida, e que nãos seja integral, quando na verdade só há uma missão em Cristo: aquela que inclui a integralidade daquilo que o Evangelho representa.

O problema é que isso coloca todos os adeptos da teologia da missão integral em franca e direta oposição à larga e vasta maioria das igrejas evangélicas e do mundo evangélico, que jamais compreendeu e jamais aceitou a teologia da missão integral, que certamente não entende a missão da igreja dessa forma, mas antes pregando e praticando aquilo que os adeptos da missão integral seriam obrigados a chamar de “missão parcial”.

Só a aceitaram os chamados “evangelicais”, um adjetivo que se usa, em oposição a “evangélico”, para designar um grupo de evangélicos de difícil localização. Uma palavra que é um anglicismo, tradução do inglês “evangelical” que, na verdade, quer dizer “evangélico”, e não “evangelical”. O adjetivo “evangelical” tende a cair no vazio. Quem são os evangelicais, além dos participantes da FTL?

Mas acontece que, se não há missão parcial, isso tem sérias conseqüências para quem advoga a missão integral. Assim como uma meia-verdade é, em geral, uma mentira inteira, também a noção de uma missão parcial é um equívoco. Missão parcial simplesmente não é a missão cristã, pelo contrário, é uma distorção perigosa da missão, uma distorção alienante, aviltante e opressora. Não é a verdadeira missão do corpo místico de Cristo, a Igreja Invisível, que é sempre missão integral, uma vez que essa é a única genuína missão neotestamentária. Uma missão distorcida não só não é missão de Cristo, mas presta desserviço a Cristo, pois é missão feita em nome de Cristo sem ser de Cristo. Isso a caracteriza, a partir de uma perspectiva neotestamentária, como missão do anticristo. Toda igreja que se diz cristã, mas rejeita, não por ignorância, mas conscientemente, a teologia da missão integral, está, ipso facto, sub judice, como candidata a igreja do anticristo.
 

V. Palavras Finais

Alguém poderá dizer, agora que desembarcamos no porto final desta caminhada teórica que compõe esta comunicação, que as conclusões a que chegamos são apenas óbvias. Diante desta observação crítica, tudo que tenho a dizer é que concordo inteiramente. Assim já dizia Caetano Veloso que seriam óbvias as palavras que o índio proferiria em um ponto eqüidistante entre atlântico e o pacífico. E que surpreenderiam por ser óbvias, pois o óbvio é bom, é claro e é verdadeiro. É precisamente da obviedade que carecemos, mas não da obviedade tautológica ou repetitiva, a platitude que não passa de um lugar comum. O que se pretendeu foi dizer o óbvio que esclarece, que desobnubila, que desobstaculiza, que ilumina e que tranqüiliza o coração. Não proponho, porém, sequer que este trabalho específico de limpar o terreno para futuras edificações esteja completo. Esclareço ainda além, portanto, que este texto pretendeu apenas iniciar uma reflexão que deve continuar em conjunto agora, num espírito fraterno e elucidativo.

Hábitos que transformam

Este artigo publicado na revista Ultimato em sua edição de nov/dez de 2009,  escrito pelo rev. Ricardo Barbosa, da Igreja Presbiteriana do Planalto em Brasília, foi o tema do acampamento de carnaval 2010 da IBAB Jovem. Ricardo Barbosa (foto) também esteve palestrando no acampamento. Segue o artigo.

Ricardo Barbosa prega sobre os Hábitos que Transformam, tema do acampamento baseado em seu artigo. Ao fundo logotipo do acampamento criado por Thiago Leon Marti com total referência visual a temática

Em 1989, o reverendo John Stott veio ao Brasil para falar num dos congressos da VINDE — Visão Nacional de Evangelização. Depois de uma de suas palestras, nos reunimos para conversar com ele. Era um grupo pequeno de jovens pastores, sentados em torno de um dos maiores expositores bíblicos da nossa geração, perto de completar 70 anos. A conversa seguiu animada. Ele nos deu liberdade para perguntas pessoais e, entre outras, não faltaram aquelas sobre o porquê de não se casar.

Porém, de todas, guardei apenas a resposta que ele deu quando lhe perguntaram sobre a razão do seu longo ministério tão frutífero. Ele respondeu: “Leio a Bíblia e oro todos os dias, vou à igreja todos os domingos e nunca falto à celebração da Eucaristia”. A resposta foi surpreendente por sua simplicidade.

Sabemos que ler a Bíblia e orar todos os dias, ir aos cultos e participar da Ceia nunca foram, por si só, sinais confiáveis de espiritualidade, muito menos um caminho seguro para a maturidade. Muitas pessoas fazem isso por puro legalismo. Por outro lado, sabemos também que não fazer nada disso é um caminho seguro e certo para o fracasso espiritual.

O doutor James Houston, criticando o abandono da leitura devocional em nossos dias por uma literatura funcional e pragmática, afirma: “Os hábitos de leitura do chiqueiro não podem satisfazer a um filho e aos porcos ao mesmo tempo”. Ao usar a imagem da Parábola do Filho Pródigo, ele nos chama a atenção para o risco de nos acostumarmos com a vida do chiqueiro. Para Houston, as práticas devocionais nos ajudam a perceber que existe algo maior e mais excelente na vida de comunhão com o Pai.

O reverendo A. W. Tozer (1897-1963) escreveu um artigo afirmando que “Deus fala com o homem que mostra interesse”, e que “Deus nada tem a dizer ao indivíduo frívolo”. Mais do que cultivar o hábito de ler a Bíblia, orar e participar do culto, o que na verdade fazemos quando cultivamos estas práticas devocionais é demonstrar o interesse vivo que temos por Deus e por sua Palavra.

Da mesma forma como a vida necessita do básico (ter o suficiente para comer e vestir, onde descansar), a natureza da vida espiritual repousa sobre o que é essencial (Bíblia, oração, comunhão, adoração e missão). São esses hábitos básicos que nos colocam no lugar onde podemos experimentar a graça de Deus e crescer.

Há hoje muita oferta para a vida e para a espiritualidade. A sedução do supérfluo despreza o essencial. Vivemos o grande perigo de negar o básico, achando que podemos experimentar a graça de Deus e provar sua bondade e amor sem nos aquietar e deixar que sua Palavra molde nosso caráter, que a oração fortaleça nosso espírito e que a comunhão nos sustente em nossa identidade como povo de Deus.

As disciplinas espirituais básicas cultivadas pelo reverendo Stott ao longo de sua vida formaram seu caráter como cristão. Nada pode substituir a prática diária da oração nem a leitura devocional das Escrituras. Nada substitui o valor do culto comunitário nem o mistério da Eucaristia. O cultivo destas disciplinas requer de nós não apenas tempo e perseverança, mas também humildade e coragem para sermos transformados pelo poder de Deus.

Deus não nos chamou para a realização pessoal, mas para a comunhão pessoal e íntima com ele e o próximo. Deus não nos chamou para sermos operários agitados do seu reino, mas para amá-lo e amar ao próximo de todo o coração. Os hábitos devocionais libertam-nos da “normalidade” do chiqueiro e nos transportam para uma existência de comunhão com Deus que enobrece a vida. São estes hábitos que preservam nossos olhos voltados para o alto, para que, aqui na terra, nossa existência ganhe a grandeza dos ideais divinos.

As práticas devocionais fazem parte do processo formativo da alma diante de Deus. Precisamos cultivá-las a fim de permanecermos em sintonia com o reino de Deus, que molda o nosso caráter em Cristo. É a palavra de Deus que devolve a vida aos “ossos secos” da agitação moderna.


Eu estou farto – Ariovaldo Ramos

Ótimo texto de Ariovaldo Ramos este abaixo, não apenas belas palavras, mas para quem o conhece de perto e o acompanha, sabe que é um vida de lutas dentro da Igreja Brasileira. O artigo todo é interessante, entretanto chamo a atenção quando ele explica sobre o uso da palavra esquerdista, o termo já não é mais utilizado. Pessoas não acompanham o ritmo e ainda classificam o mundo através da dicotomia comunistas e capitalistas. Esses dias li um artigo de alguém acusando o próprio Ari de comunista, esses termos já não cabem mais no vocabulário, estão atrasados, o único país do mundo que em pleno século XXI se encontra comunistas é na Coréia do Norte segundo o renomado professor de História Geoffrey Blainey. Enquanto pessoas não se atualizam e ficam utilizando termos em desuso (como comunistas, socialistas, esquerdistas) seus vocabulários estão tão atrasados quanto suas mentes, por isso continuam em batalhas quixotescas contra moinhos de ventos que só existem em suas mentes. Enquanto alguns puxam o freio de mão e só reclamam, tem muita gente realizando e construindo a história em parceria com Deus e tocando o barco.

Abaixo o texto do Ari publicado originalmente em seu blog.

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Acabei de ler uma asquerosa crítica à Senadora Marina Silva. Faltam dados, falta seriedade, falta responsabilidade!

A crítica foi publicada num site que se propõe ser arauto de mídia séria! Mas,  de fato, é porta-voz do que era chamado, no tempo em que as ideologias estavam na pauta, de extrema direita.

Parece que ainda há quem tenha saudade do tempo em que se torturava a quem quisesse, quando quisesse.

Gente para quem a palavra democracia não significa nada.

Recentemente, um artigo publicado nessa mídia me citou, acusando-me de esquerdista, pró-aborto e de pró-gayzismo. E já fui questionado quanto a isto.

Não sou pró-aborto, mas, também, não sou a favor desse estado de coisas, onde a mulher é usada e abusada, onde a orientação sexual não chega aos pobres, onde o Estado se omite e faz vistas grossas ao estado de violência a qual o jovem e, principalmente, a moça está submetida, pela alienação das drogas e dos bailes funks, que sustentam o machismo que faz da mulher o mais abjeto objeto. E não sou contra a mulher vítima de estupro, e cuja gravidez lhe seja fatal, ser assistida na interrupção de sua gravidez.

Não sou pró-gayzismo, seja lá o que isso signifique, mas sou a favor dos direitos civis. Sou contra a tentativa do movimento gay de reescrever a Bíblia, mas, também, sou contra privar os homossexuais do usufruto do património de construção conjunta. Sou contra o impedimento de ajudar a um homossexual que o queira deixar de ser, como sou contra a hostilização de um ser humano porque ele ter se declarado homossexual.

A palavra esquerdista não faz mais sentido, nos dias correntes. Eu sou progressista! Sou a favor da reforma agrária, do acesso universal à educação, à moradia, à saúde, ao transporte urbano, à alimentação adequada. Sou a favor da distribuição de renda, da erradicação da pobreza, da sustentação do meioambiente e da democracia.

Sabe de uma coisa? Eu não sei quanto a você, mas eu estou farto dessa gente que se acha dona da verdade, e que, em nome do que acham ser a verdade, vivem a matar pessoas.

Farto dessa gente que se apossou de Deus, como se Deus fosse um objeto que se possa ter e manipular.

Essa gente que não considera como semelhante quem não concorda com eles!

Recentemente, também, uma série de e-mails anônimos foram disparados me caluniando, tentando me vender como um pecador dissimulado, para dizer o mínimo.

Estou farto desses covardes, sem caráter que, por detrás do anonimato, vivem a tentar destruir a vida dos outros.

Estou farto dos que dão ouvidos a eles, fazendo valer a calúnia e a difamação.

Estou farto dessa gente que anima suas rodas de amigos falando mal dos outros, zombando da desgraça alheia.

Farto dessa gente que vê fantasma em todo o lugar, que está sempre procurando alguém para atacar e para destruir.

Estou farto dessa gente que não sabe o que é debate intelectual, que toma tudo como pessoal, porque se vê como a medida para a verdade.

Farto dessa gente que em vez de pregar o Evangelho, fica checando se os outros o estão.

Checando se o outro crê “certo”.

Estou tão farto disto, tanto quanto, dos que estão invocando Deus para obter dinheiro para os seus negócios, travestidos de ministérios,de  igreja ou de denominação.

Dos que lutam pelo poder denominacional, transformando o Odre em algo mais importante do que o Vinho.

Também, me fartei dessa gente que quer destruir tudo, confundindo a igreja local com a deturpação da denominação, confundindo o povo com os seus maus líderes e que se tornam líderes tão maus quanto os que condenaram, e que saem pelo mundo atacando os pastores e as estruturas com a mesma fúria dos que as estão usando para benefício próprio.

Estou farto desses apóstolos que venderam que tinham de ser apóstolos para derrubar as potestades nas cidades, as mesmas que foram destronadas na Cruz de Cristo!

Estou farto dos que não usam o título de apóstolos, mas agem do mesmo jeito!

Estou farto dos liberais, que rasgam a Bíblia e saem a zombar de quem crê.

Estou farto desses ecuménicos que dizem celebrar a fé, de modo indistinto, mas não conseguem estender a mão para o irmão pentecostal.

Mas jamais me fartarei da Igreja:

A Igreja é a comunidade da fé! É a nossa casa!

A Igreja é lugar de perdão e de reconciliação.

O que é oferecido a todos nós, inclusive para os que agem como se não o precisassem, é a oportunidade de se arrepender.

A fé cristã não prega a impecabilidade, prega o arrependimento!

A fé cristã prega que o amor é demonstrado no perdão e no serviço!

A gente deve continuar a lutar pela Igreja!

Continuar a lutar pelo resgate da humanidade, e de toda a criação de Deus.

Nosso problema não está no termos pastores ou presbíteros, mas em sermos todos apascentadores.

Nosso problema não está em darmos dízimos e ofertas, mas em como ofertamos, e como usamos as nossas ofertas e dízimos.

A Igreja somos nós, e o único Ungido é Cristo Jesus.

Todo poder: seja religioso ou econômico ou de qualquer natureza, tem de ser controlado pela totalidade do povo.

Se você está farto como eu, não saia da Igreja, Igreja é invenção de Jesus.

“Jesus disse que onde 2 ou 3 estiverem reunidos em seu nome, ele lá estaria.” Mt 18.20

Jesus seria a 4ª pessoa naquela reunião.

Jesus seria a visita especial.

Ali Ele segredaria o que não pode dizer pessoalmente. Paulo disse que só com os demais irmãos é possível conhecer o amor de Cristo, em toda a sua dimensão. Ef 3.18

Alguns têm entendido que essa reunião é o fim de toda a formalização, a comprovação de que nunca precisamos de formalização alguma.

Mas, o que é reunir-se em torno de Jesus?

Jesus instituiu como reunião em torno dele a reunião em torno da ceia do Senhor.

Jesus disse que  toda a vez que comêssemos do pão e bebêssemos do vinho, o anunciaríamos, até que  ele volte. 1 Co 11.26

É em torno da ceia  do Senhor que nos reunimos em nome do Senhor.

Isso é formalização: tem hora, tem maneira e tem lugar. E é seríssima, pois Paulo disse que, dependendo da forma como participamos da ceia, podemos sofrer consequências, inclusive morrer mais cedo. Logo, também tem liturgia. 1 Co 11.27-30

Então, reunir-se em nome de Jesus é reunir-se em torno da ceia.

Lá anunciamos o perdão com o que somos perdoados e com que perdoamos.

Lá anunciamos a ressurreição, o poder pelo qual vivemos.

Lá o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre.

Lá é a reunião da Igreja!

Todas as reuniões só serão da igreja se o forem em torno da mesa, mesmo que a mesa não seja arrumada para aquele dia.

A mesa da ceia é a mesa da comunhão. Lá nasceu a Igreja e lá ela é mantida.

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Corre Jesus, corre !!

Jesus ficou o ano todo trancado em um armário.
Hoje o tiraram porque está chegando o Natal; passaram nele o espanador, o lavaram, o enfeitaram e cobriram seu corpo com papéis coloridos.
Puseram-no na árvore com estrelas e velas entre guirlandas e neve feitas com fibra de vidro.
Agora que a família se distrai com o álcool, Jesus desce da árvore e escapa pela janela!
Corre, Jesus, corre, para as pessoas não te alcançarem!
Que não te aconteça o que já te aconteceu!
Jesus escapa do templo onde o sacerdote o mantém preso e o vendedor de Bíblias o oferece em doze parcelas…
Jesus escapa das senhoras que só fazem pedidos,
dos senhores que se lembram dele somente na igreja, da tristeza do trabalhador, do tédio do patrão, dos gordos… de barba de algodão que distribuem idiotices e nozes, dos falsos profetas que acalmam a consciência dos ladrões nos salões, dos chorões que o crucificam a cada ano.
Jesus escapa pela estrada em busca de uma nova Maria, para refugiar-se em seu seio e se salvar desta sociedade medíocre!
Corre, Jesus, corre, para as pessoas não te alcançarem!
Que não te aconteça o que já te aconteceu!

(Trecho de “Corre, Jesus, corre”, Facundo Cabral, CD Pateando Tachos, extraído do livro O que é Missão Integral? C. René Padilla – Editora Ultimato)

Deus é uma criança

É. Cada um celebra o que escolhe. Acho que farei uma sopa de fubá que tomarei com pimenta e torradas.

Sou um admirador de Gandhi. Cheguei mesmo a escrever um livro sobre ele. Estou planejando convocar os amigos para uma homenagem póstuma a esse grande líder pacifista e vegetariano. Pensei que uma boa maneira de homenageá-lo seria um evento numa churrascaria, todo mundo gosta de churrasco, um delicado rodízio com carnes variadas, picanhas, filés, costelas, cupins, fraldinhas, lingüiças, salsichas, paios, galetos e muito chope. O grande líder merece ser lembrado e festejado com muita comilança e barriga cheia!

Eu não fiquei doido. O que fiz foi usar de um artifício lógico chamado “reductio ad absurdum” que consiste no seguinte: para provar a verdade de uma proposição, eu mostro os absurdos que se seguiriam se o seu contrário, e não ela, fosse verdadeiro. Eu demonstrei o absurdo de se celebrar um líder vegetariano de hábitos frugais com um churrasco.

Uma homenagem tem de estar em harmonia com a pessoa homenageada para torná-la presente entre aqueles que a celebram. Uma refeição, sim. Mas pouca comida. Comer pouco é uma forma de demonstrar nosso respeito pela natureza. Alface, cenoura, azeitonas, pães e água.

Escrevo com antecedência, hoje, 27 de novembro, um mês antes, para que vocês celebrem direito. A celebração há de trazer de novo à memória o evento celebrado. É uma cena: numa estrebaria uma criancinha acaba de nascer. Sua mãe a colocou numa manjedoura, cocho onde se põe comida para os animais. As vacas mastigam sem parar, ruminando. Ouve-se um galo que canta e os violinos dos grilos, música suave… No meio dos animais tudo é tranqüilo. Os campos estão cobertos de vaga-lumes que piscam chamados de amor. E no céu brilha uma estrela diferente. Que estará ela anunciando com suas cores? O nascimento de um Deus?

É. O nascimento de um Deus. Deus é uma criança.

O nascimento do Deus criança só pode ser celebrado com coisas mansas. Mansas e pobres. Os pobres, no seu despojamento, devem poder celebrar. Não é preciso muito. Um poema que se lê. Alberto Caeiro escreveu um poema que faria José e Maria, os pais do menininho, rir de felicidade: “Num meio-dia de fim de primavera, tive um sonho como uma fotografia: “Vi Jesus Cristo descer a terra. Veio pela encosta do monte tornado outra vez menino. Tinha fugido do céu…” Longo, merece ser lido inteiro, bem devagar…

Uma canção que se canta. Das antigas. Tem de ser das antigas. Para convocar a saudade. É a saudade que traz para dentro da sala a cena que aconteceu longe. Sem saudade o milagre não acontece.

Algo para se comer. O que é que José e Maria teriam comido naquela noite? Um pedaço de queijo, nozes, vinho, pão velho, uma caneca de leite tirado na hora. E deram graças a Deus.

E é preciso que se fale em voz baixa. Para não acordar a criança.

Naquela mesma noite, havia uma outra celebração no palácio de Herodes, o cruel. Ele tinha medo das crianças e mataria todas se assim o desejasse. A mesa do banquete estava posta: leitões assados, lingüiças, bolos e muito vinho… Os músicos tocavam, as dançarinas rodopiavam. Grande era a orgia.

É. Cada um celebra o que escolhe. Acho que vou fazer uma sopa de fubá que tomarei com pimenta e torradas. E lerei poemas e ouvirei música. E farei silêncio quando chegar a meia-noite e, quem sabe, rezarei?”

Rubem Alves

(Folha de São Paulo, 27/11/2007)

Humanitária, nunca humanista

Foto: Flickr (usuário Lalala)

Ontem participei do XII Congresso de produção científica da Universidade Metodista. Uma das apresentações foi da mestranda Luana Martins Golin que realizou uma excelente apresentação sobre: O Grande Inquisidor, de Dostoiévski e a crítica ao marxismo. (lamentei por não ter gravado em áudio a apresentação) em dado momento Luana explicou que os ideais marxistas são humanistas. Achei interessante demais suas ligações literárias do conto O Grande Inquisidor, uma parábola no romance Os Irmãos Karamazovi.

Mas fiquei pensando o relacionamento entre o cristianismo em alguns conceitos apresentados por ela, entre eles o conceito de humanismo. Eis que senão quando, hoje encontro esse belo texto de Ariovaldo Ramos em seu portal Missão Integral.

Eis seus pensamentos sobre humanismo x humanitária

A fé cristã é humanitária e não humanista. O humanismo acredita na bondade intrínseca do homem; já a fé cristã afirma que o homem é mau e constantemente mau o seu desígnio.

Quando a raça humana caiu, tudo o que permaneceu de bom nela é fruto do ato divino de emprestar, aos humanos, algo dos seus atributos comunicáveis.

Ao rompermos com Deus escolhemos ser o oposto dele, logo, escolhemos a maldade como estilo de vida.

Agora, como Deus é o lugar onde vivemos, nos movemos e existimos, ao rompermos com Deus, deveríamos ter deixado de existir, uma vez que fora de Deus nada existe ou pode existir.

Então, ao rompermos com Deus dois milagres aconteceram conosco: 1 – fomos mantidos na existência, logo, fomos mantidos em Deus; 2 – algo da bondade de Deus foi depositada em nós, de modo que, embora optando pela maldade, continuamos a saber e fazer o bem de várias maneiras.

Essa possibilidade do bem, em nós, não é mais intrínseca à humanidade, é fruto desse depósito de bondade de Deus em nós. Assim, na mesma medida em que não acreditamos que os seres humanos sejam capazes de, por si mesmos, fazer o bem, acreditamos que vale a pena investir na humanidade porque algo da bondade de Deus lhe foi emprestada. O que torna possível a pessoas que não amam a Deus amarem o próximo.

A fé cristã é humanitária, acredita que investir no bem da humanidade vale a pena, porque a bondade de Deus está atuando na humanidade e pela humanidade.

A fé cristã não se ilude com a humanidade, mas, ao mesmo tempo, não perde a esperança na humanidade.

A fé cristã luta pela humanidade porque sabe que essa é a luta de Deus.

O Encontro

Por Ariovaldo Ramos

Pastor, hoje eu tive um encontro de terceiro grau com Deus, e preciso da sua ajuda!

Como um encontro de terceiro grau?

Pessoal, pastor, face a face!

Hoje, você esteve com Deus como… Moisés?

Isso pastor! E preciso da sua ajuda!

Por que uma pessoa que esteve pessoalmente, ao vivo e a cores, com Deus, precisa de minha ajuda, ou de qualquer ajuda?

Por que apareceram dois, pastor!

Dois… Como assim?

Deus! Apareceram dois seres!  E ambos disseram ser Deus!

Ao mesmo tempo?

Não, pastor, primeiro veio um e depois veio outro, e eu preciso que você me ajude a descobrir qual dos dois é Deus, de fato!

Não sei se posso ajudar…  Como era cada um?

Iguais, absolutamente iguais, apareceram com a mesma  face, jeito… Tudo!

E a fala? Falaram a mesma coisa?

Ah! Isso não!

O primeiro chegou, eu estava no quarto, não tive medo, ao contrário, veio uma enxurrada de tranqüilidade. Aí ele disse: Tenho ouvido as suas orações, percebo sua preocupação com as pessoas em seu sofrimento, com a violência, com a injustiça. Sua preocupação  com os rumos da minha Igreja, com a pregação enganosa, com a distorção do evangelho. E ouço todas as vezes que você pergunta o porquê da minha aparente não interferência.

Eu vou interferir, vou botar a casa em ordem!  Quanto ao sofrimento, por enquanto é assim, é o custo da queda, afinal, graças à desobediência de vocês, o mundo jaz na maldade. Mas, no fim, os justos florescerão, sua diferença será percebida por todos os outros que jogaram fora a oportunidade que lhes foi oferecida. E quanto a esses falsos pregadores: eles não perdem por esperar, serão expostos: um a um!

Essa foi a fala do primeiro. Falou e sumiu!

Enquanto eu meditava nessas palavras… Apareceu o outro.  Do mesmo jeito! E, mais uma vez, eu não tive medo, pelo contrário, veio uma enxurrada de tranqüilidade. Aí ele disse: Tenho ouvido as suas orações, percebo sua preocupação com as pessoas em seu sofrimento, com a violência, com a injustiça. Sua preocupação com os rumos da minha Igreja, com a pregação enganosa, com a distorção do evangelho. E ouço todas as vezes que pergunta o porquê da minha aparente não interferência.

Nós vamos interferir, vamos botar a casa em ordem! Entenda,  sofremos com vocês! E, desde antes da criação, nós fizemos tudo o que precisava ser feito para acabar com esse sofrimento, vocês viram isso manifesto na morte do Cristo, e que a sua ressurreição o demonstrou. Mas entenda, há certos princípios que nós temos de respeitar! A vida é rara e muito frágil, se nós quebrarmos os princípios, que nós mesmos estabelecemos,  a vida deixará de existir e, com ela, o universo. O sofrimento terá fim, e haverá justiça; é para isso que trabalhamos até agora.

Quanto aos erros grosseiros, nós os vemos e lamentamos, mas, tínhamos de decidir, diante do que aconteceu, antes de acontecer, como acabaríamos com a maldade que, em vocês, achou expressão; com a agravante, que a única maneira de acabar com a maldade é acabar com os maldosos. E vimos que há duas maneiras de acabar com os maldosos: ou os destruímos, ou os convertemos. Nós decidimos pela conversão.

E para que vocês pudessem ser convertidos, tínhamos de perdoá-los em primeiro lugar, por isso, nós sempre nos aproximamos de vocês a partir do perdão que lhes estendemos. Assim, insistiremos na conversão de vocês até o fim. E quando convertemos um de vocês, é uma maravilha! Porque nós marcamos com fogo no coração de vocês a nossa lei, e a nossa lei é o amor. E aí vocês mudam de vida, por entenderem que é amando que se vive, que é perdoando que se convive, e que é servindo que se estabelece a justiça. Sei… você está pensando: mas eles já são convertidos! Pois é, nós insistiremos na conversão de vocês até o fim.

Essa foi a fala do segundo. Falou e sumiu!

Então, eu vim correndo para falar com você: Qual dos dois é Deus? A quem devo ouvir e seguir?

Ai meu Deus! Não sei lhe dizer… me vi muito na fala do primeiro, e fiquei envergonhado na fala do segundo.

Acho que temos de pedir ajuda. Por favor nos ajudem…  Para vocês… Quem é Deus?

Extraído do portal Missão Integral

Seja lago e não copo

sal

O velho Mestre pediu a um jovem triste que colocasse uma mão cheia de sal em um
copo de água e bebesse.
-’Qual é o gosto?’ – perguntou o Mestre.
- Ruim’ – disse o aprendiz.
O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse a
um lago.
Os dois caminharam em silêncio e o jovem jogou o sal no lago. Então o velho
disse:
-’Beba um pouco dessa água’. Enquanto a água escorria do queixo do jovem o Mestre
perguntou:
-’Qual é o gosto?’
-’Bom! disse o rapaz.
-’Você sente o gosto do sal?’ perguntou o Mestre.
-’Não  – disse o jovem.
 O Mestre então sentou ao lado do jovem, pegou suas mãos e disse:
-’A dor na vida de uma pessoa não muda. Mas o sabor da dor depende de onde
a colocamos. Quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é
aumentar o sentido de tudo o que está a sua volta.
É dar mais valor ao que você tem do que ao que você perdeu.

Em outras palavras: É deixar de Ser copo, para tornar-se um Lago.

O Cesto e a Água

cesto_limpar

Dizem que isto aconteceu em um mosteiro chinês muito tempo atrás.

Um discípulo chegou para seu mestre e perguntou:

- Mestre, por que devemos ler e decorar a Palavra de Deus se nós não conseguimos memorizar tudo e com o tempo acabamos esquecendo? Somos obrigados a constantemente decorar de novo o que já esquecemos.

O mestre não respondeu imediatamente ao seu discípulo. Ele ficou olhando para o horizonte por alguns minutos e depois ordenou ao discípulo:

 - Pegue aquele cesto de junco, desça até o riacho, encha o cesto de água e traga até aqui.

O discípulo olhou para o cesto sujo e achou muito estranha a ordem do mestre, mas, mesmo assim, obedeceu. Pegou o cesto, desceu os cem degraus da escadaria do mosteiro até o riacho, encheu o cesto de água e começou a subir de volta. Como o cesto era todo cheio de furos, a água foi escorrendo e quando chegou até o mestre já não restava nada.

O mestre perguntou-lhe:

- Então, meu filho, o que você aprendeu?

O discípulo olhou para o cesto vazio e disse, jocosamente:

- Aprendi que cesto de junco não segura água.

O mestre ordenou-lhe que repetisse o processo de novo. Quando o discípulo voltou com o cesto vazio novamente, o mestre perguntou-lhe:

- Então, meu filho, e agora, o que você aprendeu?

O discípulo novamente respondeu com sarcasmo:

- Que cesto furado não segura água.

O mestre, então, continuou ordenando que o discípulo repetisse a tarefa. Depois da décima vez, o discípulo estava desesperadamente exausto de  tanto descer e subir as escadarias. Porém, quando o mestre lhe perguntou de novo:

- Então, meu filho, o que você aprendeu?

O discípulo, olhando para dentro do cesto, percebeu admirado:

- O cesto está limpo! Apesar de não segurar a água, a repetição constante de encher o cesto acabou por lavá-lo e deixá-lo limpo.

O mestre, por fim, concluiu:

- Não importa que você não consiga decorar todas as passagens da Bíblia que você lê, o que importa, na verdade, é que no processo a sua mente e a sua vida ficam limpos diante de Deus.

Esta estória ilustra o que o apóstolo Paulo queria transmitir quando escreveu aos Romanos: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente” (Rm 12:2, NVI).

 

Extraído do blog Ichtus

Crueza histórica

gaza

Os americanos usam uma expressão tosca quando querem acabar com o lero-lero, “let´s cut the crap”. No português um pouco menos tosco seria alguma coisa como, “vamos parar com o papo furado”.

O Natal mal terminou, qualquer aura sentimentalóide esvaneceu, e o jogo bruto da história já se impõe. As notícias do dia 27 de dezembro mostram como será o novo ano. Israel bombardeou a miserável Faixa de Gaza, e mais de 120 estão mortos. Mães desesperadas procuram entre os escombros o que restou do corpo dos filhos – bombas não escolhem alvos, matam indiscriminadamente!

A complicada equação da geo-política palestina ainda contém o elemento religioso. E para minha vergonha, a tradição evangélica, da qual fiz parte, legitima o direito de expulsar, matar, dizimar os palestinos, baseando-se na posse da terra que Deus deu a Abraão há milênios. Mas diante da carnificina mundial, o que são 120 palestinos mortos? No mesmo dia, talvez o dobro morra em Darfur, Congo e Zimbábue.

A história sempre foi crua. Só no século XX, turcos trucidaram armênios; russos exterminaram milhões de russos; a Europa se afogou em sangue na I Guerra Mundial; os nazistas aperfeiçoaram técnicas de extermínio em massa; americanos jogaram duas bombas atômicas sobre a população do Japão; a Guerra Civil espanhola foi horrorosa; chineses impuseram o comunismo na base da força bruta; Vietnam, Camboja e Laos tiveram seus holocaustos; ditadores latino-americanos torturaram, assassinaram e mutilaram indiscriminadamente; em Ruanda, bastaram 45 dias para oitocentos mil serem dizimados com facão e machado.

Luzes natalinas, fogos de artifício no Réveillon e as apoteóticas aberturas olímpicas não passam de andrajos rotos, que tentam disfarçar a lepra da nossa História. Somos lobos ferozes. Criamos lógicas que legitimam a morte de inocentes – danos colaterais para o bem maior da humanidade? – invocamos deus para abençoar a nossa maldade. Escrevemos teologia para explicar a nossa sina. Mas somos piores que os chacais, predadores que espreitam mesmo quando não têm fome.

As bombas que caíram sobre Gaza me deixaram com o mesmo gosto amargo que o Tsunami há alguns anos. Aliás, let´s cut the crap, esse papo de ano novo é pura balela pra boi dormir.

Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim

(Duas horas depois, o número de mortos chegou a 205. Quatro horas depois, 220 mortos. No dia segiunte, mais de 300 mortos - 150 crianças.  A carnificina continua 36 horas depois, 350 mortos. Aguardemos as más notícias.)

Khalid e seu destino eterno

aviao

Khalid é camponês no Iraque. Há séculos sua família vive cuidando de um pequeno curral com bodes, cabras e algumas ovelhas. Mas ele ainda hoje não entende porque aviões barulhentos sobrevoaram sua choupana despejando bombas. Uma dessas bombas caiu há cem metros de onde seus filhos brincavam. Dois meninos e uma menina morreram com estilhaços enormes que estraçalharam seus corpos franzinos. Khalid nunca ouviu falar de Jesus Cristo ou da Bíblia. Como é analfabeto, soube apenas que os seus sacerdotes abençoaram os pilotos do avião para aquela missão.

Para a enorme maioria dos evangélicos, Khalid, além de pobre, analfabeto e sem filhos, ainda vai para o inferno no dia em que morrer. Por ser herdeiro do pecado e da culpa de Adão, será punido com fogo eterno. A condenação de Khalid será inexorável porque não fez uma confissão pública de fé nos ditames dos evangélicos.

O iraquiano sofrerá muito. Vermes lhe comerão a carne por zilhões de anos; sedento, rangerá os dentes e perpetuamente lamentará por ter sido solidário com o pecado do primeiro casal. Seu desterro será perpétuo.

Eis a brilhante lógica do fundamentalismo evangélico: a sua má sorte foi nascer no Iraque e não em Dallas, Texas, pois nos estado mais evangélico do mundo, suas chances de ser converter seriam geometricamente maiores. Inclusive, dentro dessa lógica, o capelão que orou com o piloto antes de decolar vôo, não só o perdoou por antecipação, como garantiu que a “justa guerra” legitimava as bombas despejadas sobre o vilarejo suspeito. Quanto aos danos colaterais, mesmo péssimos, são inevitáveis e serão creditados à Providência. Isto é, se os filhos de Khalid morreram, “Deus que tem tudo sob o seu controle, supervisionou e permitiu as mortes com algum propósito” – que só serão conhecidos na eternidade.

Será que, enquanto a humanidade celebra o Natal, bilhões de Khalids seguem para o inferno inexorável?

Alguns convivem bem com essa lógica. Digo apenas que ela é cruel e não tem nada a ver com Jesus de Nazaré.

A todos os Khalids do mundo, amados e queridos de Deus, Feliz Natal.

Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim

Saindo da lama

lama

Rabi Yisrael Zalman de Charchov, um discípulo de Rabi Avraham de Slonim, certa vez reclamou com Rabi Avraham:

“Rebe, trabalhei tanto durante toda minha vida para fazer teshuvá (arrependimento), e mesmo assim não consigo notar a menor alteração em meu caráter. Que posso fazer?”

Rabi Avraham replicou: “Imagine um homem que está preso no barro até os tornozelos. A cada passo que dá, afunda novamente no barro. Talvez pense que não está conseguindo nada com estes passos, mas a verdade é que cada passo o aproxima mais da terra seca.”

Conto extraído de Beit Chabad

Hemodiálise da alma

Esse texto foi escrito pelo meu amigo Fabio Fino em março de 2007, acompanhei os motivos da escrita, me solidarizei com ele e considerei este texto um verdadeiro salmo que talvez tenha sido esquecido por Davi e o Fabio veio agora escrever. São coisas da alma ligada com Deus. Segue o texto

 

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Dos vários tipos de dores, aquela da alma é a mais sofrida e angustiante. Mal e porcamente comparando é como aquela coceira que vez por outra nos acomete e não encontramos o ponto para saciá-la com as unhas, pois parece percorrer por você.

Meu sofrimento é na alma, lá no cantinho da alma onde pouco se alcança e quase nada se retira, lá no canto inferior direito onde se forma o angulo de 90º .

Meu querer hoje é poder se desligar um pouco e deitar livre dos pensamentos e das preocupações. Queria eu ficar livre do mal que me causei só por um instante para poder bocejar o prazer de sentir a vida passar pelas minhas veias como se tivesse a nascer de novo.

Mas onde se faz hemodiálise da alma, onde? Como fazer regime das gorduras do mal?

Pudera eu voltar a idade mais inocente e súplice descansar esperando que alguém decida todas as coisas por mim.

O sentimento dentro de mim é de medo, mas é também doce como a morte que é sutil e tranqüila que nos parece quando já chegou.

Anestesiado é assim que estou, como se visse a vida e as pessoas por uma lente suja.

Incrível como um pouco de prazer intenso é como a bomba H, o prazer de quem cria é a angústia que perdura e parece não ter mais fim.

A escolha que fiz tem preços altos e juros impraticáveis, me endividei por que quis. Troquei o crescer lentos das flores que exige paciência e cultivo pela explosão da bomba H, onde se atinge tudo e todos e o prazer inigualável dura poucos instantes e suas consequências são amargas e duradouras.

Mas o dia de hoje não é a eternidade, muito embora se pareça. E o sinais que Deus me apresenta que de tão intrigantes não serei louco de ignorá-los, pois daqui a pouco o próprio Deus aparecerá na minha frente e ai a coisa ficará bem complicada.

Deus ajuda-me.


Que eu possa ter o ideal de ser leve e íntegro. Que não me envergonhe por ficar de fora do grupinho dos “tais” se seus atributos forem compostos de coisas que me levam para o mal. Que minha vaidade seja aniquilada e eu seja envergonhado quando desejar usar de maneira sobremodo egoísta.

Que os céus destilem o orvalho e as nuvens sobre mim chovam justiça e a terra se abra e deixe nascer em meu coração à salvação.

Que sua graça me alcance com profundidade que limpe até o cantinho da alma, e que seu amor me purifique como uma hemodiálise celestial de quem está sempre pronto a perdoar.

Não me diga Senhor que não é certo o que peço, pois serei como teimosa mulher Cananéia que ousou lhe enfrentar, pois até mesmo os cachorrinhos comem das migalhas dos seus donos….

Senhor, ajuda-me.

Extraído do blog Reformado

 

 

30 anos – e agora Alex ?

Igual em uma ampulheta, as areias do tempo escorrem pelas minhas mãos. O mais instigante na fantástica vida que nós é concedida, é que não sabemos a quantidade de areia que ainda nós resta. Hoje eu completo 30 anos, quando eu tinha apenas 19 eu li pela primeira vez o livro O Dia do Curinga do escritor norueguês Jostein Gaarder. A fala é do pai explicando para o filho sobre o tempo.

 

“- O tempo não passa, Hans-Thomas, e não é um relógio. Nós passamos e são os nossos relógios que fazem tique-taque. O tempo vai devorando tudo através da história, silenciosa e inexoravelmente, como o sol se levanta no Leste e se põe no Oeste. Ele destrói civilizações, corrói antigos monumentos e engole gerações atrás de gerações. Por isso é que falamos dos “dentes da engrenagem do tempo”: o tempo mastiga, mastiga… e somos nós que estamos no meio de seus dentes.”

 

Sinto-me às vezes mastigado pelo tempo; e chego a um momento de reflexão na vida. Refletir sobre o que se passou e o que poderá vir a ser o nos próximos anos se Deus quiser. Ultimamente me sinto desanimado com a vida e a existência, sem prognósticos em algumas áreas de minha vida, entretanto me lembro de outras que consegui avançar e me tornar mais humano e sereno. Ouvir mais e falar menos. Um dos meus problemas é que tento raciocinar demais em alguns acontecimentos da vida e em outros, nem pensar refletir direito.

 

Mas com bom senso e a ajuda de Deus chegamos lá. Eu queria escrever mais sobre essa data, sei que não vai ter depois, pois não é todo dia que se completa três décadas de existência, porém hoje não esta sendo um bom dia para inspirações.

 

Encerro esse post com uma frase do Rubem Alves que nesses dias, mais do que nunca tenho que me lembrar dela:

 

“A cada aniversário que se celebrar, a vela sairá do seu lugar, cada vez menor, para ser de novo acesa, repetindo a eterna lição de que, se é verdade que a vida se apaga facilmente com o sopro de um vento, é verdade também que ela se acende de novo a ser tocada pela chama.”

 

By Alex Fajardo

A vida é curta. Perdoe rápido. Beije lentamente

A morte é um caso sério. Mais para os jovens do que para os idosos. Estes vão se acomodando lentamente com a idéia da morte, mais por fatalidade do que por renúncia da vida. Aqueles esperneiam o quanto podem e abrem a boca, na esperança de relaxar. 

É o caso do sargento do exército americano Jeff Barillaro, de 31 anos, que serviu em Bagdá por 15 meses (de agosto de 2005 a novembro de 2006). Para suportar os reveses da guerra, nas horas de folga ele fazia música. Numa de suas canções, Barillaro escreveu: “Vou morrer, vou me ferir, essas coisas sempre vêm à mente| Ele vai morrer ou ela vai morrer| É apenas uma questão de tempo| Coloco meu uniforme, coloco meu capacete| Beijo as fotografias de minha família, mando um e-mail à minha garota, para que ela saiba que eu sinto sua falta”. 

Do outro lado do mundo, em Nova York, uma modelo de 20 anos chamada Ruslana Korshunova, escrevia poemas e os colocava em seu site de relacionamentos. Um deles diz: “A vida é curta. Quebre as regras. Perdoe rápido. Beije lentamente. Ame de verdade. Ria descontroladamente. E nunca lamente nada que tenha feito você sorrir”. 

Curioso é que o sargento americano que dizia: “Vou morrer” ainda não morreu, e a modelo nascida no Cazaquistão e que foi capa de revistas européias como “Elle” e “Vogue” morreu no dia 28 de junho, ao cair da janela de seu apartamento no nono andar de um prédio em Manhattan. 

A morte não tem educação. Ela não bate à porta. Ela não pede licença para entrar, como se queixa o profeta Jeremias: “A morte subiu e penetrou pelas nossas janelas e invadiu as nossas fortalezas, eliminando das ruas as crianças e das praças os rapazes” (Jr 9.21). 

Portanto, vamos nos perdoar rápido, vamos nos beijar lentamente, vamos amar de verdade, vamos rir descontroladamente, vamos valorizar tudo que há de bom e nos faz sorrir. E, mais do que tudo, vamos nos aproximar cada vez mais de Deus, com quem nos encontraremos face a face logo depois da morte!

 

Extraído da revista Ultimato, edição nº 314 (setembro / outubro de 2008)

Que fim levou o Sagrado? (Expo Cristã)

Texto gera texto, pensamento leva a pensamento. Uma coisa puxa outra. Resenhas, por exemplo, me convidam às vezes a orar e compor (ou escrever aqui no Cristianismo Criativo). Por exemplo, acabei de ler uma entrevista com o escritor catarinense Deonísio da Silva, que recentemente lançou seu sétimo romance, Goethe e Barrabás, pela Editora Novo Século. Sujeito muito interessante o Deonísio. Além de escritor, professor universitário, é ex-seminarista católico e autor de mais de trinta obras, como Mulher silenciosa (1981), A cidade dos padres (1986), Teresa (1997) e Os guerreiros do campo (2000), além de estudos sobre etimologia, como De onde vêm as palavras (1997).

Bom, apresentado o dito cujo, ouçamos o que ele diz (em entrevista dada a Luciano Trigo, no Portal G1):

       A principal carência do mundo hoje é de recolhimento, de meditação. Igrejas e templos foram transformados em outra coisa, em silos, depósitos. Onde você busca a transcendência? Nos templos e igrejas? Muito raro que lá você sinta isso. No cinema e no teatro, na leitura, nos museus… Mas nas igrejas? Acho que não”.

Caramba, sô, que pedrada! Que fim levou o sagrado? Onde foi parar a transcendência? Se isso é fato no ambiente católico, o que dizer dos nossos encontros evangélicos movidos a adrenalina (pseudo) religiosa pura? Não cabe silêncio, nem cânticos de lamento (metade dos Salmos) ou confissão de pecado, depois de um sermão ou desafio. Não se preocupa mais com o conteúdo litúrgico (que quer dizer apenas “o que fazer e cantar durante o culto “, mas com a necessidade de agradar ao consumidor cristão… aliás, esse é o nome de uma revista dirigida ao mercado gospel, a gente que, como eu – preciso admitir – produz música para as igrejas e circula por elas cantando, falando etc.

Hipocrisias descartadas, já que estou no meio dessa canjica, fui à ultima edição da Expo Cristã dirigir um tempo de louvor no lançamento de e uma nova Bíblia (Almeida 21, Editora Vida Nova) e, depois desse evento importante, dei uma circulada na feira e confesso que saí meio tonto, vesgo, enjoado, triste e… cansado de tanto lixo (literalmente, no chão) e nas vitrines (metaforicamente falando). Não foi exatamente o excesso de informação, mas de deformação que me deixou nauseado: livros de auto-ajuda travestidos de “vida cristã “, quinquilharias “gospel” de todo tipo e espécie, desde adesivos para o pára-brisa do carro (“Se é crente, buzine! “, “Ora que melhora!”) até bugigangas mais exóticas como …ah, deixa pra lá! A Bienal no Livro, semanas antes, foi bem mais edificante! Havia mais transcendência por lá!

Creio que é a minha ingenuidade morena que me decepciona! Se é raro e árdua tarefa achar silêncios convidativos nos templos (!) evangélicos, períodos de louvor contemplativos nos cultos evangélicos, sermões que me sejam mais que a) promoção/contabilização de culpa (falsa e verdadeira), b) sociologização/psicologização rasa das Escrituras (como, amigos pastores, a gente cai fácil fácil nessa!), o que eu poderia esperar de uma ” feira para o consumidor cristão”?

Brian MacLaren, um teólogo tido como “herege e danoso  por muitos nas fronteiras mais conservadoras – para não dizer fundamentalistas – postou um vídeo no You Tube no qual ataca profeticamente isso que a gente costuma chamar de “indústria do louvor “.  Tremi quando o ouvi falando no perigo de transformarmos o tal Líder de Louvor em um mero manipulador de auditório (que espera, anseia, busca ser manipulado). “Arte e propaganda são coisas bem distintas”. O que chamamos de arte cristã, em geral, é mera ferramenta de auto-promoção e marketing pessoal!

Um dia ouvi o Dr. James Houston chamar Billy Graham de “cristianismo pop”. Não entendi. Não gostei, de cara. “Billy Graham não é Jimmy Swaggart”, eu pensei. Depois, escarafunchando a fala profética e filosófica dessa homem de Deus – contemporâneo de C.S.Lewis e Tolkien, em Oxford, fundador do Regent College, no Canadá – concluí algo meio óbvio: se o Papa é pop, cantaram os Engenheiros do Havaí, Billy Graham idem! Os dois, nas suas abordagens de massa, andam no fio da navalha, na tênue linha do íntegro e do manipulativo, como eu mesmo, confesso. Que perigo cair para o lado roto da bagaceira! É como se os evangélicos estivessem imitando (resgatando) o que há de melhor da tradição cristã do catolicismo. Na minha opinião, o movimento monástico, a Mística, os Pais e Doutores da Igreja – e os católicos (os irmãos carismáticos, sobretudo)  se encantando com nosso pior: “Vamos tirar o pé do chão, irmãos!”

A culpa não é minha. Falem mal do Deonísio da Silva e sua mania de me provocar. Eu não sei onde foi parar o sagrado, bolas!

Gerson Borges é um carioca-paulista, pastor-músico, flamenguista-são paulino, que não sabe mais se é pop ou litúrgico, mas morre de fome de Deus, de silêncios, de espaços verdes e de amizades longas.

Texto extraído do site Cristianismo Criativo

 

As Amoras e o inverno

O Inverno é uma metáfora da vida. O frio já não é mais uma marca tão importante dos últimos invernos. Estive na cidade tida como a mais fria do Brasil e por lá ouvi: – Frio, frio mesmo de -4ºC a gente não vê faz uns dez anos e dizem as previsões que, devido ao aquecimento global nunca mais haverão dias como aqueles. Que pena!

 

Refiro-me, especificamente, à esterilidade que gosta do inverno por companhia. As gramas estão marrons. As parreiras e macieiras são como galhos de um arbusto que morreu. Feios, empalidecidos, como gravetos prontos pra ir à fogueira. A maioria das árvores está hibernando como fazem os ursos. E, por isso, nos omitem suas sombras, suas danças e suas belezas. Os vales e os montes estão todos tristes e macambúzios… É inverno!

 

Lá em casa tem dois pés de amora de ficam de frente à janela da sala. São novinhos ainda. Mas nem por isso são tímidos em nos alegrar com suas crias. Cada uma mais linda e mais deliciosa que a outra. São das grandes. Rechonchudas. Minha relação com estes pés de amora já dura 4 anos. Eram duas plantinhas quando lá cheguei. Hoje eu cuido deles, amarro os galhos depois da temporada porque quem passa por ali não resiste, mete a mão. E onde a mão não alcança, a outra puxa o galho até que a amora fique ao alcance do seu sorriso de conquista. Tudo isso sem se importar com os galhos que vão caindo, caindo até quebrar. A certa altura eles parecem aqueles velhinhos cansados e corcundas que deram a vida por seu trabalho e por servir os outros. Estão cumprindo sua missão. Pés de amora existem para que pessoas parem na frente deles e tenham a experiência única e fugaz do prazer. Como todo prazer tem um preço, alguns galhos se vão, eternamente.

 

As amoreiras fazem o caminho inverso das parreiras e das macieiras. No verão, enquanto as uvas e as maçãs reinam, as amoreiras estão como mortas, esquecidas de todos. Dava uma tristeza enorme olhar pra elas todos os dias e lembrar com saudade do tempo de outrora. Me fez reviver, à minha maneira o poema de Casimiro de Abreu. Era como se eu sentisse também saudades da aurora da vida.

 

Mas agora elas estão lá. No começo ainda, mas percebe-se claramente que tanto as amoras quanto os seus galhos cumprirão mais uma vez a exuberante missão de fazer as pessoas felizes. Sim, elas voltaram!

 

Invernos não duram pra sempre. Na vida há hibernações de alegria e de produção. Sofrimento. Mas eles também não duram pra sempre. Uma boa lição que aprendo com as minhas duas amoreiras é que a tristeza também é efêmera. Tristeza é saudade do sorriso. E a gente só sente saudade do que existe. Do que amamos. Passamos pelo sofrimento com a esperança de que sorriso existe e voltará. Assim como as amoras, que a cada dia entre os meses de agosto e outubro, voltam a sorrir e a fazer sorrir. Lembre-se: a amoras voltaram; o sorriso voltará!“O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.” (salmo de Davi)

E, respondendo Simão, disse-lhe: Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos; mas, sobre a tua palavra, lançarei a rede.”

 


Com carinho,

Marcelo Coelho, pastor presbiteriano e 1º Capelão Evangélico da Aeronáutica em São Paulo.

Extraído do blog do autor.