
O Inverno é uma metáfora da vida. O frio já não é mais uma marca tão importante dos últimos invernos. Estive na cidade tida como a mais fria do Brasil e por lá ouvi: – Frio, frio mesmo de -4ºC a gente não vê faz uns dez anos e dizem as previsões que, devido ao aquecimento global nunca mais haverão dias como aqueles. Que pena!
Refiro-me, especificamente, à esterilidade que gosta do inverno por companhia. As gramas estão marrons. As parreiras e macieiras são como galhos de um arbusto que morreu. Feios, empalidecidos, como gravetos prontos pra ir à fogueira. A maioria das árvores está hibernando como fazem os ursos. E, por isso, nos omitem suas sombras, suas danças e suas belezas. Os vales e os montes estão todos tristes e macambúzios… É inverno!
Lá em casa tem dois pés de amora de ficam de frente à janela da sala. São novinhos ainda. Mas nem por isso são tímidos em nos alegrar com suas crias. Cada uma mais linda e mais deliciosa que a outra. São das grandes. Rechonchudas. Minha relação com estes pés de amora já dura 4 anos. Eram duas plantinhas quando lá cheguei. Hoje eu cuido deles, amarro os galhos depois da temporada porque quem passa por ali não resiste, mete a mão. E onde a mão não alcança, a outra puxa o galho até que a amora fique ao alcance do seu sorriso de conquista. Tudo isso sem se importar com os galhos que vão caindo, caindo até quebrar. A certa altura eles parecem aqueles velhinhos cansados e corcundas que deram a vida por seu trabalho e por servir os outros. Estão cumprindo sua missão. Pés de amora existem para que pessoas parem na frente deles e tenham a experiência única e fugaz do prazer. Como todo prazer tem um preço, alguns galhos se vão, eternamente.
As amoreiras fazem o caminho inverso das parreiras e das macieiras. No verão, enquanto as uvas e as maçãs reinam, as amoreiras estão como mortas, esquecidas de todos. Dava uma tristeza enorme olhar pra elas todos os dias e lembrar com saudade do tempo de outrora. Me fez reviver, à minha maneira o poema de Casimiro de Abreu. Era como se eu sentisse também saudades da aurora da vida.
Mas agora elas estão lá. No começo ainda, mas percebe-se claramente que tanto as amoras quanto os seus galhos cumprirão mais uma vez a exuberante missão de fazer as pessoas felizes. Sim, elas voltaram!
Com carinho,
Marcelo Coelho, pastor presbiteriano e 1º Capelão Evangélico da Aeronáutica em São Paulo.
Extraído do blog do autor.













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